Arquivo mensais:maio 2015

Santa Cecília – A Catedral Fortaleza

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Albi guarda uma das catedrais mais impressionantes e a maior construída com tijolos no mundo. Medindo 113 metros de comprimento, 35 de largura e com uma torre sineira com 78 metros de altura, surpreende o visitante muitas vezes comparando-a a um verdadeiro “castelo”.

A Catedral fazia parte do sistema defensivo que compreendia o Palácio deBerbie e, na época, podia acolher 6 000 albigenses em caso de perigo.

A sua edificação teve início no ano de 1282, período em que os bispos da Igreja Católica começavam a exercer forte poder local. Devido à utilização de um tipo de tijolo de cor avermelhada específico desta região da França, a cidade acabou por receber a alcunha da cidade vermelha. A catedral de Albi é completamente feita desse tijolo vermelho.

Foi construída para comemorar a aniquilação dos cátaros¹ no sul da França. A construção atual foi precedida por outras: a primeira datada do século IV que foi destruída por um incêndio no ano 666. A segunda é datada de 920 e tinha o nome de Santa Cecília, que se mantém até hoje. Foi reformada no século XIII, sendo refeita em pedra. A igreja gótica que se vê hoje foi construída entre 1282 e 1480.

É uma catedral aparentemente simples, mas que se destaca pela sua grandiosidade e beleza interior. Parece uma fortaleza inexpugnável construída em uma colina com vista para o espaço circundante. Rodeando-a pode-se admirar a força e a austeridade de seus muros que elevam-se a 40m de altura. As janelas abertas têm 20 metros a partir da base e são estreitas, aumentando a sensação de verticalidade.

St. Cecilia oferece um contraste impressionante entre o rigor defensivo exterior de sua arquitetura e riqueza interior de uma decoração suntuosa. Testemunho da fé cristã após a heresia dos cátaros, esta catedral fortaleza é uma obra-prima do gótico sulista.

O interior do monumento marca uma ruptura com a aparência maciça do exterior. Acredita-se que eles são artistas flamengos, estranhos, que perceberam o enorme mural do Juízo Final (1475-1480). Ao mesmo tempo, os artistas esculpem o francês na tela rood gótico e do coro de encerramento (1475-1484). Este conjunto de pedra é adornado com uma bela escultura policromada, testemunho único pela sua importância e qualidade da escultura francesa do século XV.

Entre os tesouros da catedral, há um belo órgão clássico francês (1736) e mais:

  • 87 estátuas na fachada exterior da galeria,

  • 33 personagens do Antigo Testamento ao redor do coro,

  • 15 estátuas contida dentro da Igreja (12 apóstolos, a Virgem, São João Batista e São Paulo),

  • 72 estátuas de anjos, Carlos Magno e do imperador Constantino.

Todas as estátuas mantiveram a sua policromia original. A cor tende ao naturalismo, cabelos, atitudes e figurinos são uma maravilhosa variedade de estilos, barbas, rostos, drapeados e distinguem três famílias que podem estar relacionadas com a arte dos grandes gravadores franceses do final do século XV: Antoine Le Moiturier e Michel Colombe.

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A tela rood, o ‘jubé’

O “jubé²” (parede interior que separa o coro do coro) aparece em verdadeiras rendas brancas de pedra, adornado com mais de 270 estátuas esculpidas por mestres da Borgonha.

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O Orgão

Está entre os mais belos da França. Seu buffet (aparador)  Christophe Moucherel (1734-1736) é admirado pelos conhecedores por suas dimensões incomuns.

Este instrumento é então reformulado por vários construtores de órgãos e em vários períodos do tempo até perder o seu caráter original. A partir de 1950, a sua condição de operação chega a ser inviável até que uma decisão foi tomada para restaurá-lo e não para reconstrui-lo. Então, em 1977, Bartolomeo Formentelli é designado para garantir que a restauração seja feita no instrumento Moucherel. Esta inauguração aconteceu em 1981. É uma mecânica complexa e frágil e requer atenção e cuidados constantes.

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As abóbadas

Os afrescos na abóbada (1509-1512) são de cores ricas e dimensões excepcionais (97m de comprimento e 28 m de largura) e formam em seu todo a maior pintura renascentista italiana e a mais antiga da França.

O revestimento azul profundo dos arcos acima do coro é o famoso “Blue de France“, que também é chamado de “azul royal”. Quanto à amostragem na abóbada da nave, foi estabelecida que esta cor tivesse base lápis lazuli e óxido de cobre, que é provavelmente a escolha de materiais de qualidade que explica o bom estado de conservação da abóbada.

As abóbadas da catedral ainda possuem folhagem decorativa, arabescos, candelabros e cenas pastorais. Os temas de Adão e Eva e da Anunciação estão representadas por figuras importantes do Antigo e do Novo Testamento, em uma ordem que culmina com Cristo em Majestade. Dois compartimentos servem para a imagem de Santa Cecília, padroeira do lugar.

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O julgamento final

As paredes laterais da “capela-mor” são decoradas com pinturas alusivas ao Juízo Final, da autoria de pintores flamengos entre 1474 e 1484, o mais importante da França pelo seu tamanho : 300m².

Uma obra prima majestosa pintada no final do século XV, sob o reinado de D. Luís I d’ Amboise que, com os adjetivos recebidos, lhe valeram para ser mencionada como Patrimônio Mundial pela UNESCO. 

Apesar da ausência de sua parte central, destruída no final do século XVII, quando Cristo apareceu em glória, o Juízo Final mantém um frescor surpreendente pictórico. Há mais de cinco séculos, antes da abóbada, foi decorado com pinturas suntuosas e coloca à frente uma realidade que não lhe poderia escapar: a morte. 

A Catedral de Santa Cecília faz parte do Patrimônio Mundial da UNESCO e hoje, é uma das catedrais mais visitadas da França.

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¹ CátarosOriginado da palavra grega καϑαρός katharós, que singnifica puro, o catarismo era um movimento cristão que ocorreu na região Sul da França e na parte Norte da Itália no fim do século XI e foi até o começo do século XIV. Os cátaros eram considerados heréticos pela Igreja Católica e suas ideias são paralelas às crenças do gnosticismo, dos paulicianos (Oriente Médio) e dos bogomilos (Reino dos Búlgaros).
²Le jubé: Em uma igreja, o jubé é uma plataforma e um muro de pedra ou madeira que separam o coro litúrgico da nave. Tem esse nome a partir da primeira palavra da frase em latim “jube, domina benedicere”. The rood-screen(inglês) (um dos raros remanescentes na França) possui uma decoração em chamas que anuncia toda a magnificência ornamental da capela-mor em torno das sepulturas.

Paulo Edmundo Vieira Marques

 

 

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Escudeiro – Fiel Parceiro

O escudeiro tinha por encargo transportar as armas, em especial o broquel, o escudo do guerreiro. Devia ainda preparar os cavalos de montaria, pois fazia parte da “escuderia” ou “cavalariça”. Era, por isso, considerado um membro do “famulus”, isto é, daqueles criados domésticos ligados à casa senhorial. Era o escudeiro quem servia seu senhor à mesa, o acompanhava em combate e era seu mensageiro. Os escudeiros formavam o grupo de serviçais obsequiados, geralmente jovens oriundos de famílias de vassalos que ficavam de guarda ou como aprendizes no castelo. Na Espanha e no Império Romano eram considerados aprendizes, um estrato inferior da aristocracia. Quando, no século XII, se desenvolveu o hábito de armar o cavaleiro, esses aprendizes passaram a ser considerados aspirantes à cavalaria. Contudo a elevação do custo da ascensão social inteditou tal possibilidade. No século XIV, o escudeiro era, portanto, um aristocrata que, embora tivesse idade e mérito, não poderia tornar-se cavaleiro. este passou a ser assimilado à nobreza, ao passo que o escudeiro manteve-se nos limites do estrato plebeu.

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O poeta Wolfram von Eschenbach mostra suas armas, Códice Manesse, 1304.

Paulo Edmundo Vieira Marques

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Especiarias – Cobiça e Fantasia

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Derivada da palavra latina species, que designava qualquer “espécie” de produto e, mais tarde, a partir do Baixo Império (período final do Império Romano do Ocidente), as substâncias aromáticas ou drogas de origem exótica, as especiarias suscitaram a cobiça e a fantasia de muitos ao longo da Idade Média. Segundo o tratado do florentino Pegolotti, La pratica della mercatura, 1340, a lista das especiarias compreendia 286 produtos eliminadas as repetições, há no total 193 espécies. Os produtos comumente utilizados na farmacopeia medieval e provenientes dos três grandes reinos – mineral (mercúrio, bórax), vegetal (anis, cardamomo), animal (âmbar, castóreo, substância segregada pelo castor) – correspondiam a mais da metade da listagem. Depois, vinham os produtos de uso industrial, próprios para o tingimento (alume, indigo), ou utilizados na perfumaria (cânfora, almíscar), compondo 22 por cento dos produtos listados. Finalmente, os condimentos, últimos da lista, 20 por cento, com as clássicas e conhecidas especiarias (pimenta, canela, cravo-da-índia). Além desses constavam da lista: mel, laranja e açúcar, produtos que hoje não mais considerados especiarias

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Um mesmo produto podia servir indistintamente à farmacopeia, à cozinha e às manufaturas, o que dificulta sua classificação por uso e utilidade. Mais de um quarto desses produtos, em particular as grande especiarias orientais, provinha da Índia, e do Extremo Oriente. Caracterizavam-se pelo alto preço e pelo fato de já serem objeto de grande comércio entre os indianos e árabes, antes de alcançarem o mercado europeu. A Pérsia e a Ásia Central forneciam 13 por cento dos produtos citados por Pegolotti, o Oriente Médio e o Egito, 20 por cento. Da África, vinham o marfim e o incenso, das regiões pônticas (na costa do Mar Negro), a sinopita e a argila vermelha da Armênia, dos países nórdicos, o âmbar, o estanho e o breu. mas um quarto dessas especiarias recenseadas provinha, sobretudo, das regiões mediterrâneas, produtos de sua atividade extrativa, agrícola e artesanal. A importância das especiarias na cozinha medieval foi por muito tempo creditada à necessidade de conservar os alimentos, ou à influência árabe. Todavia, um conhecimento mais apurado dos livros de receitas e das contas privadas passou a levar em consideração também os fenômenos de moda e gosto e a diversidade no uso dos condimentos segundo os países, ou as regiões, e diversos meios sociais. O consumo diversificou-se, crescendo conforme subia a escala social. Um tando abandonadas pela arte culinária do final da Idade Média, as especiarias continuaram como base da farmacopeia até a “revolução química” do século XIX. As receitas populares, remanescências de receitas ditas esquecidas ou modificadas, utilizavam os “simples”, mas os receituários e antidotários, expressão das teorias da polifarmácia herdada dos gregos e dos árabes, faziam uso intenso das especiarias em associações complexas.

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A economicamente importante Rota da Seda (vermelho) e especiarias rotas de comércio (azul) bloqueado pelo Império Otomano, 1453 com a queda do Império Bizantino, estimulando a exploração motivada inicialmente pela constatação de uma rota marítima em torno da África e provocando a Era dos Descobrimentos.

Com o intuito de desenvolver o comércio das especiarias entre o Extremo Oriente e o Mediterrâneo, três grandes rotas intercontinentais foram, simultaneamente ou sucessivamente, utilizadas: o golfo Pérsico, nos  primeiros tempos do Islã, o mar Vermelho e o Rio Nilo, sob os fatímidas, e as duas rotas mongóis da seda e das especiarias, sendo Marco Polo, um dos seus precursores, atingindo o mar Negro no início do século XIV. A partir de 1350 e até o final da Idade Média, Alexandria e Beirute foram os grandes mercados desses produtos do Oriente. Sua supremacia só seria contestada em 1498, com a chegada às Índias de Vasco da Gama, que, pelo contorno da África, inaugurou a rota portuguesa das especiarias.

especiarias 4Miniatura da Bodleian Libray, manuscrito que descreve a saída de Marco Polo de Veneza rumo a Rota da Seda.

Paulo Edmundo Vieira Marques

 

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