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Saint-Antonin-Noble-Val – Os Primórdios do Cristianismo em Aveyron

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Saint-Antonin-Noble-Val (Saint Antonin em occitano) é uma linda cidade medieval na comuna de Tarn-et-Garonne, departamento no Midi-Pyrénées região no sul da França. Um lindo monumento medieval a céu aberto. Encantadora e emocionante experiência.

A cidade tem o nome de Antonino de Pamiers, que trouxe o cristianismo para a região de Rouergue. Ele foi martirizado em 305 D.C., quando a sua tentativa de cristianização não deu certo. Mas a semente fora plantada.  Acredita-se que os seus restos mortais possam estar enterrados em uma abadia da cidade fundada no século IX por Festus, o governante local da Vallis Nobilis. Conta a lenda que Saint Antonin foi o primeiro evangelizador de Rouergue (atual Aveyron), o que influenciou na escolha do nome da cidade

A implantação do cristianismo foi sedimentada e ampliada pelos beneditinos no século XI, e foi concretizada por volta de 1150. No final do século XII passou para o controle dos agostinianos, Cônegos Regulares . Hoje, existem apenas alguns fragmentos que sobreviveram, mas as referências da arquitetura da época permanecem intactas.

As ruelas, são maravilhosas, as esquinas impressionam pela preservação, os prédios conservados nos remetem ao passado. Em cada cantinho encontra-se um café, que por sinal foi um dos melhores que até hoje eu tive oportunidade de degustar.

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Saint-Antonin tem a câmara municipal mais antiga da França. A primeira menção registrada data de 1155, serviu como casa residência nobre dos mandatários da cidade. Em 1212 foi comprado pelos cônsules (vereadores) e foi referida como La Maio del Cossolat. Os cônsules a desocuparam em 1791 e hoje abriga um museu local. Por sinal de inúmeras peças. Interessantíssimo.

O antigo castelo de Vallette (castrum vallatum) foi construído em 1180 por Fortuné de Valletta, filho do visconde Archambauld, que morreu na Terra Santa em 1190. Este castelo está localizado no topo de um penhasco íngreme com vista para o Aveyron, pertinho de St. Antonin, e suas ruínas ainda são visíveis. Também é conhecido como Château de Bône. (A família Vallette deu seu nome à capital de Malta, Valletta, que foi fundada pelo Grão-Mestre da Ordem de Malta, Jean Parisot de la Valette.

O Canal de Bessarel, é de uma beleza ímpar, foi construído no século XIII para atender a um moinho da cidade com a sua fábrica de curtumes, ainda hoje em funcionamento.

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Os senhores de Saint-Antonin adotaram o Catarismo, o que resultou na tomada da cidade por Simon de Montfort, em 1212. Triste passagem da linda vila, com inúmeras pessoas mortas e torturadas. A cidade foi sitiada durante a Guerra dos Cem Anos e duramente castigada pelos ingleses. Durante as Guerras de Religião, o povo da cidade sofreu ainda mais. Tendo adotado a Reforma, a cidade foi pega na luta entre católicos e protestantes e vários monumentos foram tristemente destruídos. Em 1622, durante a rebelião Huguenot , Louis XIII tomou a cidade. Louis XIV, renomeou a cidade para Saint-Antonin-Noble-Val e financiou melhorias importantes. Tornou-se um importante fornecedor de couro e roupas de cama. Em 1681, os protestantes foram excluídos da política e do conselho da cidade, mas a cidade ainda tem um importante templo. Após este período a cidade gradualmente perdeu seus privilégios e sua influência diminuiu. Por um período, após a Revolução Francesa, a cidade foi chamada de Libre-Val, mas logo voltou ao nome Saint-Antonin.  Em 1962, Noble-Val foi acrescentado ao nome da cidade mais uma vez.

Hoje, Saint-Antonin-Noble-Val ainda tem uma estrutura medieval autêntica; as ruas e muitas fachadas do centro da cidade não se alteraram durante 800 anos. Ela apresenta uma série de construções com pedras arqueadas e casas em enxaimel* e passarelas com pórticos intrigantes e espetaculares, ahhh e posso sentir o delicioso cheiro do café serpenteando as ruelas maravilhosas da saborosa, histórica, Saint- Antonin-Noble-Val.

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*O Enxaimel, ou Fachwerk (originário de “Fach” assim denominavam o espaço preenchido com material entrelaçado de uma parede feita de caibros), é uma técnica de construção que consiste em paredes montadas com hastes de madeira encaixadas entre si em posições horizontais, verticais ou inclinadas, cujos espaços são preenchidos geralmente por pedras ou tijolos. Os tirantes de madeira dão estilo e beleza às construções do gênero, produzindo um caráter estético privilegiado. Outras características são a robustez e a grande inclinação dos telhados. Na adaptação do enxaimel às características climáticas da região, foi necessária a implantação, por conta da elevada umidade local, de uma estrutura feita de pedra que sustenta as construções evitando que a madeira se molhe.

Professor e Historiador Paulo Edmundo Vieira Marques

Najac – A Fortaleza de Aveyron

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Se essa rua fosse minha eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhantes até o castelo eu chegar.

Quando descemos do ônibus naquela manhã linda de primavera, todos pressentimos que entraríamos em um mundo mágico do medievo. A bela vila nos aguardava, majestosa. O frio da manhã começava a dar espaço a um calorzinho gostoso pois começávamos a caminhada rumo ao castelo encantado. A trilha apesar de sinuosa e de um aclive acentuado nos passou desapercebidos, pois a paisagem em seu caminho era de uma beleza ímpar. A partir da praça principal em uma extremidade da cidade, a rua desce abruptamente, um declive acentuado com paisagens esplêndidas e arquitetura medieval soberba e bem preservada. Logo em seguida subimos, subimos e subimos, mas o seu desfecho é monumental. A fortaleza nos aguarda, imponente, preservada, uma história viva. Caminhamos no medievo.

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A vila de Najac, no Sul da França, se estende por apenas uma rua e seus arredores, mas tem diversas atrações históricas. Quem anda pela maravilhosa cidade pode ver, no meio de suas casas antigas, uma igreja gótica do século XIII, uma capela do século XIV hoje convertida em residência de um morador local permanente, uma fonte do século XIV ainda em funcionamento e a joia do local: um castelo construído em meados do século XIII, bem conservado apesar de estar há muito tempo desabitado, pois pertence ao patrimônio cultural francês e sofre, graças a Deus, seguidas restaurações. A fortaleza em si é um marco, no topo da colina, com vista para todos os lados. Com a vista panorâmica, você poderia com certeza ver os seus oponentes virem de todas as direções. Creio que o Castelo de Najac, durante a Idade Média, possuía uma das melhores localizações de defesa contra ataques inimigos. Posição muito privilegiada.

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O castelo de Najac foi obra de Alphonse de Poitiers, irmão do rei Luís IX, e faz parte de uma rede de castelos reais que se estendem pelo vale de Aveyron. Ele foi construído em 1253 com uma arquitetura totalmente defensiva, que inclui escadarias estreitas e portas baixas para dificultar o avanço do inimigo.

Ao longo da história, sua masmorra serviu de prisão para muitos soldados, inclusive para os Cavaleiros Templários (ordem que protegia cristãos na Idade Média), detidos em 1307.

A segurança era reforçada por seus grandes “archères” – fendas estreitas nas quais os arqueiros se posicionavam para lançar flechas. No castelo de Najac, elas medem 6,8 m de altura e permitiam que até três arqueiros disparassem ao mesmo tempo, sendo consideradas por alguns as maiores do mundo.

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Os visitantes também gostam de conhecer e nós a conhecemos, a passagem secreta que existe no interior dos muros do castelo, protegida por inúmeras portas, que leva da torre à capela.

Quem subir até o alto da construção também pode aproveitar a vista panorâmica do vale, que inclui as montanhas, a vila rodeada de florestas, o majestoso Aveyron e a zona rural. A subida das escadarias é íngreme, mas vale a pena, pois o vale fica aos seus pés. Você se sente realmente como O Senhor do Castelo. Ficamos todos nós maravilhados com a linda vila. Realmente nos marcou muito. De volta à entrada da cidade, com fome em virtude da longa caminhada, fomos agraciados com um almoço digno dos reis.

Najac, muito obrigado por nos dar lindas recordações para o resto das nossas vidas. Obrigado fortaleza de Aveyron.

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Professor, Historiador Paulo Edmundo Vieira Marques

O Simbolismo do Armamento do Cavaleiro Medieval

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Armadura germânica, início do século XVI

O Elmo: esperança, inteligência, pudor.

A couraça: prudência, piedade, proteção contra o vício e o erro.

As luvas: justiça, ciência, discernimento, honra.

O Escudo: fé, conselho, proteção contra o orgulho, o desregramento e a heresia.

A lança: caridade, sabedoria, justa verdade.

As esporas: temperança, temor a Deus, zelo pela salvação, lembra ao cavaleiro os seus deveres, impedem-no de desleixar na imobilidade.

A espada: força, Palavra Divina, bravura, poder. Símbolo de condição nobre e militar, ordenadora da criação, mantenedora da justiça, da paz.

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Professor Paulo Edmundo Vieira Marques

Belcastel – A Vila Bonita

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Aninhada em um vale íngreme em uma curva do rio Aveyron, Belcastel é uma das mais belas vilas medievais da França. Seu coração dispara quando você percebe que não é um sonho, literalmente a linda localidade nos transporta a um conto de fadas. No início do século XX a vila de Belcastel só podia ser alcançada através de trilhas difíceis no lombo de cavalos e mulas. Os restos do Castelo de Belcastel foram encontrados em bom estado de conservação. Bendita incursões de exploradores que nos brindou com essa dádiva medieval.

Durante os meses de verão, é repleta de turistas, mas quando eu a visitei na primavera deste ano, na companhia de grandes amigos, a vila e as suas ruelas estavam acessíveis e com um trânsito ameno.

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Logo que desci do ônibus me deu uma vontade de caminhar ao longo do rio e desfrutar dos chorões e admirar a água límpida do rio Aveyron. Com as suas margens muito bem preservadas e de uma beleza ímpar. Parecia uma pintura com as suas árvores com enormes folhas verdes em contraste com inúmeras flores com tons de amarelo brilhante.

Belcastel é uma vila medieval, muitas dessas vilas estão localizadas na margem norte do Aveyron. A vila bonita se sobressalta. Sua localização estratégica lhe teria permitido, na Idade Média, o controle deste trecho do rio Aveyron.

As casas com telhados de pedra ardósia, derramam-se pela encosta do Castelo de Belcastel localizado na parte superior. Uma cena indescritível e inesquecível. O Castelo é do século XIII, construído sobre as ruínas de uma capela do século IX. No final das Guerras de Religião, conflitantes e tristes para a região, foi doado para família Saunhac que o reformou, o ampliou e o restaurou, solidificando as suas guarnições e fortalecendo-o de sobremaneira ao longo dos próximos duzentos anos.

A família e o Castelo atingiram o seu apogeu no século XV, quando Alzais Saunhac, o Lord de Belcastel, construiu uma bela ponte sobre o rio Aveyron para conectar-se com a aldeia de Belcastel e também com a sua igreja recém-construída no lado oposto do rio. Esta igreja simples, de uma aura sublime me encantou. A encantadora L’Eglise Sainte-Marie Madeleine, abriga estações da Via Sacra pintadas pelo artista contemporâneo, Casimir Ferrer, algumas historicamente importantes esculturas em pedra, e o túmulo de Alzais Saunhac. A bela ponte de pedra torna o cenário perfeito para fotografias e pinturas da vila e do castelo. A vila bonita me abraça e me diz: seja bem-vindo forasteiro aqui a história é viva. Anualmente, o conselho da aldeia realiza concursos de arte e exposições com produtos artesanais típicos da região. Festas e festivais medievais são atrativos turísticos.

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No final do século XVI, o último sobrevivente Saunhac deixou a região e o Castelo de Belcastel começou um declínio gradual. Em um certo momento, durante a Revolução Francesa, Belcastel tornou-se historicamente importante quando Peter Firmin, um nobre de Aveyron usou o Castelo como esconderijo enquanto foragido do novo regime vigente.

O lindo vale não merecia ser esquecido. Toda a beleza e história do lugar não poderia esvaziar-se. Mas renasceria na década de 1970, quando o Castelo foi comprado pelo arquiteto Ferdinand Pouillan. Ele passou oito anos restaurando e trazendo de volta a magnitude do Castelo de Belcastel. Com o auxílio de pedreiros argelinos, sem o uso de gruas ou de máquinas modernas, reconstruíram as torres e torreões do castelo e de suas sustentações complementares, tudo com pedras retiradas do próprio vale.

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Após a morte de Pouillan, o Castelo foi comprado por um casal de norte-americanos que abriram ao público. O turismo da bela vila incrementou-se em todos os sentidos.

Hoje, você pode visitar os jardins e visitar galerias do Castelo contendo coleções de armaduras do século XVI e da arte contemporânea. Ocasionalmente eventos musicais são realizados no local.

Se você está realmente disposto a viver momentos medievais inesquecíveis, você pode alugar uma suíte localizada em uma das torres do castelo para uma verdadeira experiência do século XV, mas com todas as conveniências modernas. Um fato que eu achei muito interessante e de extrema singeleza foi o museu dedicado a três importantes e fundamentais profissões que contribuíram para a edificação de Belcastel, o ferreiro, o sapateiro e o pescador. A caminhada até o Castelo, no seu topo, é maravilhosa, pois todos os aspectos de uma vila medieval estão contidos no passeio.

Uma imagem que não me sai da cabeça quando, dentro do ônibus, indo embora, olho para o Leste e avisto o Castelo ao longe refletido nas águas límpidas do rio Aveyron.

Belcastel é verdadeiramente uma colaboração única do passado para a compreensão do presente e do futuro. Obrigado vila bonita.

u996Esse artigo é dedicado a minha amiga Waleska Martins Soares, foi um privilégio tê-la conhecido.

Professor e Historiador Paulo Edmundo Vieira Marques

La Couvertoirade, A Essência do Medievo

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A Sudoeste da França localiza-se a região dos Midi-Pyrénees. Ali encontram-se maravilhas vivas, o mundo parou de uma maneira sublime e terna, dentre elas alguns pontos turísticos abertos à visitação durante o ano inteiro. O medievo pulsa nesta região.

La Couvertoirade, uma maravilha medieval está situada no Parque Natural Regional de Grands Causses no Sul de Aveyron, a uma altitude 800 metros. Comunidade com 6000 hectares, com população permanente de 189 pessoas, distribuídas pela linda cidade e arredores. Concluo que são privilegiados habitantes de épocas distintas. Majestosa no coração de Larzac, a cidade mostra-se uma história viva do medievo. A Idade Média em sua essência. Quando adentrei no pórtico principal, observei crianças com trajes típicos medievais, brincando em torno de um círculo de pedras milenares. Senti-me como um cavaleiro retornando da Terra Santa revendo os seus familiares. Sensação extremamente gratificante para um historiador.

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Causse du Larzac era a Rota dos Templários (de 1120) e Hospitalários (de 1113). No tempo das Cruzadas essas Ordens Militares Religiosas tinham a função de abrigar e ajudar peregrinos que iam à Jerusalém visitar o túmulo de Cristo. Os Templários também se instalaram no Caminho de Santiago com a mesma missão: a de proteger peregrinos dos inúmeros saques e perseguições, principalmente de mercenários pagãos. Retornando à região, mais especificamente em La Couvertoirade, por volta de 1150, os Templários se instalaram e estabeleceram entrepostos de sustentação e proteção. Situada sobre antiga via de passagem, ligava Norte-Sul e partindo dos portos do Mediterrâneo podia-se ir para o Ocidente ou Oriente. Localizada em cima de colina com uma ampla vista para o vale era de difícil ameaça. Local estratégico! A região além de ser instigante é de uma paisagem exuberante. Ela seduz.

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Atualmente pequenas cidades tentam reviver e viver do turismo, que já está provado que se bem feito é capaz de criar empregos e sustentar com qualidade os moradores do local. As cidades fortificadas pelos Templários que estão na rota turística são Ste-Eulalie de Cernon, St-Jean-d’Alcas, Le Viala du Pas de Jaux e La Cavalerie e La Couvertoirade. 

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A vila de pedra é de um magnetismo extremo. Em 1200 os Templários construíram um castelo e em sua volta cresceu o povoado, as muralhas foram construídas no século 15. Essa cidade tem muita relação com os elementos templários e hospitalários, principalmente no sistema de recolhimento de água: as cisternas e “lavognes”, que é uma depressão na terra calcária e empedrada. Serve para juntar água das chuvas ou de nascente e para os animais. Ficam, as maiores, localizadas fora da cidade fortificada. Sinto enorme saudades dessa fortaleza templária. Me ponho a recordar os momentos enigmáticos que passei dentro desta vila repleta de história. Caminhar pela vila e por suas muralhas é de uma satisfação e prazer indescritíveis. Realmente e categoricamente é como voltar no tempo. Doce essência do medievo.

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Esse artigo é uma homenagem à minha querida amiga Berenice Longo.

Professor e Historiador Paulo Edmundo Vieira Marques

O Monte Saint Michel, “la merveille”

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A aventura promete ser maravilhosa. Os Caminhos do Medievo – Paths of Middle Ages continuam. Desta vez desfrutaremos, se Deus quiser, de momentos inesquecíveis para toda a nossa vida. Saint Michel nos espera. A magia medieval da ilha nos acolherá com seu vento, sol, nuvens, marés  e luar intrigantes. Venha comigo será um enorme prazer tê-los ao meu lado.

O Monte Saint Michel, ilha rochosa do noroeste francês, tem o apelido de “la merveille” (a maravilha). O motivo é claro: o monastério e a abadia medievais, homenagens ao Arcanjo São Miguel, dão um ar mágico e encantador ao local. Tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1979, a ilhota é o terceiro ponto turístico mais visitado da França, perdendo apenas para a Torre Eiffel e o Palácio de Versalhes. Por ano, mais de três milhões de turistas aproveitam as belíssimas vistas das edificações históricas e das mudanças da maré.

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A história do lindo lugar remonta ao século VIII. Em 708, quando o Bispo de Avranches (Aubert), após uma visão milagrosa, mandou construir sobre o Monte Tombe, nome original do lugar, um santuário em homenagem ao Arcanjo Miguel. O santuário se tornou ponto de peregrinação, fazendo um eixo religioso com outras cidades francesas como Carcassonne e Avignon. A pequena capela sobre o rochedo se tornou ponto de peregrinação e deu origem a uma vila medieval. Ao mesmo tempo, monges beneditinos se mudaram para o local e deram início a um monastério. A igreja ganhou novas instalações no século XI e foi ampliada no século XII. Apenas no século XIII-com a ajuda de Felipe Augusto, então rei da França-o local recebeu fortificação e foi dado início à construção da atual abadia. O Monte Saint Michel se tornou uma fortaleza impenetrável. Resistiu a todas as tentativas de invasão dos ingleses na Guerra dos Cem Anos. Os cavaleiros franceses sitiados no interior da abadia contaram com a formação geográfica e com a fortaleza a seu favor que é um exemplo de arquitetura militar.

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Na ilha de pedra granítica, localizada na divisa entre a Normandia e a Bretanha, encontra-se uma das mais incríveis obras do mundo. Um ícone do medievo. Diferente do que se imagina à primeira vista, o Monte Saint Michel não é um castelo. Lá nunca viveram reis e rainhas, mas sim monges beneditinos e peregrinos. A região murada abriga um vilarejo medieval, um mosteiro e uma magnífica abadia que dá nome ao monte. Tudo rodeado por um maravilhoso fenômeno natural que atrai milhares de visitantes: as maiores marés da Europa. O Monte Saint Michel é ainda mais imponente diante da maravilhosa paisagem natural, ainda mais quando se percebe que ele é a única construção em meio à imensidão da baía. 

Andar por dentro dos muros do Monte Saint-Michel é como se sentir parte dos cenários de filmes medievais. O local preserva características de época e será difícil não se transportar para muitos séculos atrás. O momento talvez seja interrompido apenas pelos insistentes cliques dos milhares de turistas que todos os dias percorrem as vielas intramuros. Ainda assim, bastará fugir da rota principal, ou mesmo permanecer por lá até mais tarde, para ter a sensação de que Saint-Michel existe só para você. Se o horário permitir e o dia for de maré, procure um lugar bem alto para ver o retorno das águas. A depender da estação do ano, a primeira onda chega junto com o pôr do sol, o que torna o espetáculo ainda mais emocionante.

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Visitar o Monte Saint-Michel é se perder por horas em paisagens espetaculares, becos fantásticos, jardins encantados e muito sobe e desce de escadas. Você poderá entrar no vilarejo medieval e curtir cada um dos mirantes, as pequenas passagens entre lojinhas de souvenirs, restaurantes tradicionais e as casas dos poucos felizardos que moram por lá. Quem tem o privilégio de conhecer o Monte Saint-Michel, “a maravilha” , jamais o esquecerá. O impacto do medievo os tocará profundamente e lhe fará melhor posteriormente, Saint Michel te protegerá ainda mais. Espero, em junho de 2016, desfrutar, ao lado de vocês desta magnífica aventura e experiência. Conto com vocês ao meu lado, até lá. 

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Professor Paulo Edmundo Vieira Marques

Rei Artur – O Tesouro dos Mitos da Idade Média

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Rei Artur e seus cavaleiros reunidos na távola redonda para celebrar o Pentecostes, diante da visão do Santo Graal. O Graal aparece em uma redoma sagrada, feito de ouro e decorado com joias, guarnecido por dois anjos. 1475. De 610v folio em BNF P. 116.

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Um detalhe da pintura “A última sono de Arthur” pelo pintor pré-rafaelita Edward Burne-Jones.

Ilustre figura da história da Grã-Bretanha, o rei Artur é um personagem situado nas fronteiras do real e do imaginário. Sua identidade histórica é a de um chefe militar que organizou no século VI, a luta da nação bretã contra o invasor saxão, mas a literatura lhe daria uma segunda existência e fez dele um rei mítico, um soberano ideal, ao mesmo tempo modelo e representante de todos os valores cavalheirescos da Idade Média.

Encarnação do direito feudal, da justiça e da generosidade, o rei Artur é o símbolo do rei ideal, com seus cavaleiros que se reúnem em volta da Távola Redonda, um exemplo da relação perfeita entre o rei e seus barões. Esse ideal monárquico iria servir de modelo à realeza feudal da época, que veria em Artur um espelho corretivo.

O rei Artur simbolizava um conjunto de valores: a encarnação de um ideal político, cortês e cavalheiresco. A figura do rei da Bretanha cristalizava os sonhos e a esperança de uma ordem perfeita. Para o escritor Julien Gracq, o rei Artur é o “tesouro dos mitos da Idade Média”.

Miniature of king Arthur, holding a spear and a shield emblazoned with the Virgin and Child.

Miniatura do Rei Artur com seu escudo brasonado com a Virgem e o Menino Jesus. British Library.

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Detalhe da coroação de Artur, Jean Wavrin. Miniatura do século XV.

Professor Paulo Edmundo Vieira Marques

Caminhos do Medievo – Paths of Middle Ages – A Aventura Continua

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Monte Saint Michel, Normandia, França.

No ano que vem, 2016, junho, nós vamos trilhar a maior aventura de nossas vidas.
Olá meus amigos, se vocês precisarem de maiores detalhes sobre a viagem, por favor, entre em contato no e-mail atendimento@belpaeseturismo.com.br ou adicione Bel Paese Turismo   no Facebook e envie uma mensagem inbox, solicitando as informações detalhadas a respeito dessa maravilhosa aventura. Vamos caminhar juntos nessa linda jornada.
Não perca o seu lugar! Abraços queridos amigos.

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Dinan, Normandia, França

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Rouen, Normandia, França.

O Esplendor de Saint Sernin – O Auge do Românico

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A maravilha de Toulouse se impõe sobre o Haute Garonne e Saint Sernin mais ainda. As datas da construção da basílica não são muito claras, mas parece que o trabalho teve início por volta do ano 1000. A sua base como basílica, pois no decorrer do tempo houve inúmeras reformas e ampliações, foi em 1096 e a igreja foi dedicada ao primeiro bispo e mártir da cidade, Saint Saturnin (transformada para ” sernin “). Saint Sernin é uma das maiores igrejas de peregrinação e, provavelmente, foi o modelo para a Catedral de Santiago de Compostela. Ela tem os mesmos corredores laterais duplos e ambulatórios com capelas amplas e bonitas o que amenizava a dor e o sofrimento dos peregrinos.

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A basílica também desempenhou um papel vital na unificação da França. No decurso da cruzada albigense, os “cruzados” liderados por Simon de Montfort confrontaram-se com Raymond VI, o conde de Toulouse, que era aliado de Pedro II de Aragão. Trágicas e sangrentas batalhas se sucederam. Simon de Montfort, suscitou amor e ódio. Ninguém contestava sua forma de comandar e guerrear. Suas tropas o admiravam como líder exemplar e carismático. Os principais homens da cristandade consideravam-no como um instrumento do Céu e da justiça religiosa. Mas sua pilhagem brutal na região do Midi causou inúmeras vítimas que até hoje execram os seus descendentes. Montfort foi um grande líder militar e decisivamente derrotou Pedro e Raymond na Batalha de Muret, em setembro de 1213. Pedro foi morto, mas Raymond manteve a resistência. Toulouse, a capital do reino de Tolosa, foi ocupada sucessivamente por ambos os lados que sofreram um processo doloroso de inúmeras perdas humanas. Em 1215, Raymond aproveitou a ausência de Montfort e voltou a assumir o comando da cidade.

Montfort imediatamente voltou a sitiar a cidade. No 25 de junho de 1218, no entanto, a nobreza de Toulouse (Toulousains) ajudaria na defesa da cidade rosa e também nas obras de conclusão da Basílica de Saint Sernin, ainda não concluída por causa das devastações das guerras em curso, Montfort foi morto por uma pedra atirada do telhado da Basílica. Diz a lenda que a pedra foi arremessada por donas e tozas e mulhers (senhoras, meninas, e mulheres).

A morte de Montfort mudou o caráter da chamada cruzada. Seu filho Amaury de Montfort foi incapaz de segurar as terras conquistadas por seu pai e passou suas reivindicações ao rei da França. Desse momento em diante, a luta se tornou política. Blanche de Castille, regente de seu filho Luís IX solucionou o impasse com o Tratado de Paris-Meaux em 1229. A única filha de Raymond, Joan, condessa de Toulouse, e Alfonso, Conde de Poitou em 1237, filho do rei Luís VIII casaram-se e selaram o tratado e o compromisso de paz. Parte do tratado estipulava que, se o casal morresse sem filhos, a região do Languedoc reverteria para a coroa francesa. Ambos, Alfonso e Joan morreram retornando das cruzadas na terra santa. Luís IX e a coroa herdaram a província de Languedoc, como parte integrante das terras francesas.

Hoje, a grande basílica de Toulouse não nos mostra nenhum vestígio das guerras horríveis que terminaram o movimento dos cátaros na terra da langue d’oc. A abóbada de barril de Saint Sernin se destaca como um belo monumento às aspirações mais pacíficas dos antepassados da região.

Saint Sernin é conhecida pela sua imponência, a sua maravilhosa cor rosa e a magnífica escultura que adorna a igreja. Centenas de capitéis muito bonitos e tímpanos destacam as entradas da igreja. O melhor da escultura românica são destaques no ambulatório. Estas placas esculpidas, construídas nos mesmos, são esculpidas em mármore. O ‘Cristo Rei’ é o mais famoso, e remonta ao início do século 12.

n1200O tímpano do portal Miègeville data da primeira ou segunda década do século XII e foi influenciado pelos primeiros relevos sarcófagos cristãos. Este conjunto ‘Ascensão’ marca o início do renascimento da escultura monumental medieval. Saint Sernin é a maior representação da arte românica na Europa medieval. Suas esculturas e formas definem sua aparência como única. Sua composição é de uma aparência estonteante. Tudo é belo e grandioso. Miègeville tímpano portal, Basilique Saint Sernin.

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Hoje a língua do Sul está experimentando um renascimento – occitan é encontrado em sinais e ouve-se nas esquinas e mercados, principalmente o de Saint Sernin aos domingos pela manhã.  Em Toulousa as bandeiras da Occitânia tremulam e nos arredores de Saint Sernin mais ainda. Foi lá que ganhei uma que está guardada em meu escritório.

E Simon de Montfort ainda é lembrado com desprezo. Mas ninguém poderia ter previsto tais resultados extraordinários dos atos bélicos de mulheres e crianças de pé no telhado da basílica, naquele dia de junho de 1218. Uma pedra tirou a vida do líder da Cruzada e pavimentou o caminho para a reino medieval de Tolosa para passar posteriormente para as mãos do rei francês que o povo da região tanto odiava. Saint Sernin você viu tantas coisas e hoje nos dá outras tantas. Preserve-se, fique sempre conosco. Amém em qualquer credo.

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Paulo Edmundo Vieira Marques

Professor, Historiador e escritor medievalista.

Este texto é uma homenagem para as minhas grandes amigas e admiradoras de Saint Sernin, obrigado Tania Araujo e Patricia jane Dugan, a contribuição de vocês na viagem foi preponderante. Beijos.

Cordes sur Ciel – Quase no Céu

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A cerca de 25 km de Albi, no Departamento de Tarn, você será literalmente seduzido pelo encanto de Cordes-sur-Ciel. Esta aldeia, repleta de história, rica em lendas, situa-se entre as rochas de Aveyron e o céu. A localização é extremamente exuberante. Parece uma enorme montanha com um ninho em seu topo. As nuvens cobrem o seu cume como que protegendo os seus moradores. Está entre as mais belas vilas medievais da França. Cordes sur Ciel fascina a todos que a descobrem. Inicialmente parece uma miragem posteriormente você observa que a cidade somente quer tocar e abraçar o céu. Como cita Albert Camus, visitante e posteriormente morador da linda cidade:

“O viajante que, a partir dos terraços de Cordes, olhar para o céu em uma noite de verão, não precisará mais se preocupar com a angústia ou solidão, pois nesta cidade a beleza se renova a cada dia o que irá remover qualquer sentimento sofredor”

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Ao caminhar pelas suas ladeiras, e cruzando as suas ruelas, parece que nos transportamos em uma viagem através dos séculos, como se folheássemos um fabuloso livro de arte. A íngreme subida não nos intimida, pois, a beleza é tanta que ficamos admirados observando cada ponto, cada esquina, cada casebre. Em Cordes sur Ciel tudo deve ser percebível e imperdível. Fique atento, ela nos chama ao seu convívio a todo momento.

Cordes-sur-Ciel é uma das mais antigas cidades muradas encontradas em Midi-Pyrénées, uma vila cujas as flores eram uma característica da região durante a Idade Média. As flores foram e são símbolos e fonte de sustentação do comércio local. Por sinal simbologia que a deixa mais bela.

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A cidade foi fundada em 1222 por Raymond VII, conde de Toulouse, durante a reconquista da Occitânia* após a morte de Simon de Monfort. Ela, Cordes, foi a primeira e mais importante Bastide, construída para acolher os refugiados após as guerras cátaras. Originalmente, era cercada por falésias de calcário branco. A área circundante certamente tinha sido habitada desde tempos pré-históricos. Mais tarde, os gauleses e os romanos ocuparam a área e construíram habitações no local. Descrevendo o vale, no início do século XII, duas pequenas aldeias existiam no seu entorno; no meio do lindo vale encontrava-se a pequena igreja de St-Pierre de Crantoul ao norte St-Jean de Mordagne para o sul. Para o oeste, a meio caminho até o pico rochoso, um pequeno grupo de casas foram construídas em um terreno plano em torno da igreja de Nossa Senhora do Vaysse. Quem pensaria, quem imaginaria que lá em cima, no topo destas encostas íngremes, difíceis de escalar, uma cidade seria construída e que transformaria as falésias em uma fortificação? Como historiador sempre desejei observar e estudar uma cidade com essas características. Senti-me gratificado e foi um privilégio conhecê-la.

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O seu contexto histórico é fascinante e vale a pena ser melhor estudado. Nas terras dos Condes de Toulouse, uma nova religião cristã foi formada que logo se tornou popular e começou a ser amplamente adotada em um clima de tolerância: o catarismo. No entanto, Roma, através do papa, declarou ser herético, tal movimento e, em 1209 lançou uma cruzada contra os manifestantes dissidentes. Por meio da espada e do fogo, pilhagens e massacres, o rei da França e os barões do Norte apreenderam essas vastas terras ao sul. Em 1218, Simon de Montfort, “o Leão da Cruzada” morreu em Toulouse. O movimento cruzado retrocedeu o que possibilitou a reconquista da Occitânia. Mas em 1222 nada restava da aldeia de Saint-Marcel, e nos arredores do lindo vale, que tinha sido sitiada e arrasada dez anos antes pelas tropas de Simon de Montfort.

O novo conde de Toulouse, Raymond VII, que acabou sucedendo o seu pai, decidiu por duas razões construir fortificações em suas terras:  para defender suas terras voltadas para o norte de onde o inimigo viria, substituindo a fortaleza de St Marcel, que havia sido queimada e destruída, e para acomodar a população local, que tinham sido dispersada em virtude das cruzadas vindas do Norte. Cordes foi construída na parte superior da rocha Mordagne, porque tinha todas as qualidades requeridas. Este monte isolado, que se estende de leste a oeste, é mais de 100 metros mais alto do que os do vale do Rio Cérou e seu pequeno afluente, o Aurosse. Suas encostas eram íngremes e suas falésias pedregosas faziam do seu cume quase inacessível, e não tinha sido habitada anteriormente.

A Bastide Cordes foi fundada em 1222 durante a chamada “Cruzada albigense”. Sete anos mais tarde, a sua construção já tinha sido concluída. O incrível trabalho foi realizado com imensa rapidez, quando a cidade e seus arredores foram fortemente fortificadas, Cordes foi considerada um reduto essencial e preponderante para a região do Languedoc. É foi por isso que, no Tratado de Paris, o rei exigiu que ele deveria ser entregue a ele, juntamente com várias outras cidades. Foi o regresso da paz que estimularam a atividade industrial em todo o Languedoc. Embora a fundação de Cordes coincidiu com um incremento e na reviravolta na história do Languedoc, foi também parte essencial de um movimento responsável pela fundação de centenas de novas aldeias na região. A cidade progrediu durante seu primeiro século de existência, cresceu rapidamente. Atraídos pelas vantagens oferecidas pelo Conde, como parcelas de terras para futuros habitantes na propriedade livre e individual, as pessoas vinham da região de Albi, de Rouergue e de Quercy para viver na nova cidade progressista e fornecedora de trabalho. Casas foram construídas e lojas de artesanato evoluíram.

Cordes sur Ciel tornou-se um dos principais centros dos cátaros. Mas iria experimentar a crueldade da Inquisição, o repressivo Bispo de Albi estaria ativamente envolvido na revolta dos habitantes da cidade contra os métodos da Inquisição. A lenda diz que em 1233, revoltados com o fato de que um seguidor cátaro fora condenado a queimar na fogueira, os habitantes de Cordes , diz os manuscritos do seu museu, atiraram  os três inquisidores no fundo do poço no  mercado da vila onde hoje há uma placa para comemorar ou relembrar o evento. Mas apesar de tudo nos anos seguintes a cidade experimentou um crescimento fenomenal. A Bastide – se espalhou para além de suas muralhas e novas linhas de fortificação foram necessárias  cinco no total -. Em três gerações, tornou-se uma cidade próspera e pulsante com mais de 5000 habitantes. Sua prosperidade surgiu a partir dos tecidos, tingimento, lã e couro industrial comércio e finanças. Os comerciantes prosperaram e algumas famílias nobres construíram, entre 1280 e 1350, magníficas residências com fachadas góticas no que Cordes é reconhecida.

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Em 1348 a peste negra atingiu a cidade. Aniquilou cerca de um quarto da população. Sete anos mais tarde, a Guerra dos Cem Anos levou a Inglaterra ocupar terras e colinas vizinhas. Cordes enfraqueceu-se por causa das rivalidades dinásticas entre Inglaterra e França. O povo de Cordes se defendeu contra esta enorme ameaça e reforçou as suas fortificações. Eles experimentaram dificuldades, especialmente com salteadores e mercenários, que se aproveitaram das muitas tréguas, entre os ingleses e os franceses, para empreender suas próprias guerras e atrocidades. A partir de 1450 a cidade voltou a um período mais calmo e empreendeu grandes projetos de construção e reparação. Construíram novas indústrias de couro e a nova indústria do pastel que iria produzir grandes fortunas. A partir de 1562, as Guerras de Religião, que viu católicos e huguenotes-protestantes, lutando entre si, iriam trazer dificuldades enormes para Cordes. A cidade fortificada, que foi considerada o melhor baluarte da região de Albi, tornou-se objeto de inveja dos huguenotes. Em 1568 foi assediada, saqueada e parcialmente queimada. Mas qual Fênix, a linda cidade reergueu-se como se tivesse a cumplicidade do céu e das nuvens para auxiliá-las nas dificuldades. Caminhando pelos caminhos de pedras de Cordes pude reviver os fatos que estudei e senti, pois é próprio do historiador, como se estivesse vivendo todos os fatos que relatei anteriormente, cada um em seu momento. As pernas cansadas, os joelhos doloridos, mas nada disso me impediu te visitar os céus, ou pelo menos o de Cordes sur Ciel e, a amostra foi maravilhosa.

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 *A Occitânia é uma região histórica e cultural da Europa cuja principal característica é a língua occitana, neo-latina muito parecida com a língua catalã. Pode ser considerada uma nação sem estado. Seu território com quase 200.000 km² compreende a França meridional, o Vale de Aran na Catalunha, alguns vales alpinos no Piemonte e uma aldeia na Calábria (sul da Itália), chamada de Guardia Piemontese, fundada no século XIII por evangélicos valdenses piemonteses que fugiram de perseguições religiosas e mantiveram a língua occitana.

 

Paulo Edmundo Vieira Marques

Professor, Historiador e Escritor medievalista.

Obs: Este texto é uma homenagem para um amigo e grande incentivador. Homem de grande sensibilidade para apreciar a arte. Muito Obrigado Jorge Strassburger, jamais esquecerei a consideração e o reconhecimento.

 

Abadia de Fontfroide – O Retiro dos Anjos.

 

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Depois de um dia muito frio e chuvoso o dia seguinte, 28 de abril de 2015, amanheceu perfeito, céu azul, friozinho gostoso, 9 graus e um sol rejuvenescedor. Eu pressentia que algo maravilhoso nos esperava. Seguimos em direção à Narbonne, sudoeste da França, quase na fronteira espanhola. A vegetação e os aspectos das paisagens eram muito parecidos com as regiões próximas ao Mediterrâneo. Ao avistarmos a Abadia o espanto de alegria foi geral. Lugar extremamente preservado, com restaurações muito bem estabelecidas e estudadas e de uma medievalidade ímpar. Realmente todos ficaram impressionados com a beleza do lugar. Abbey Fontfroide ou ou l’Abbaye Sainte-Marie de Fontfroide está localizado no Maciço des Corbières, perto de um riacho. É esta fonte de água fresca (Fons frigidi) que deu origem ao nome do lindo mosteiro. Os braços da abadia também representam uma fonte. Logo quando se entra, no pórtico, somos informados que, originalmente, no auge, tal complexo tinha 24 celeiros e 30 000 hectares de terra. O sol bate no meu rosto e eu sinto uma sensação de paz e de tranquilidade. Se pudesse, se permitissem eu levar o meu ipad para dentro da abadia ficaria anos na companhia dos monges e anjos que creio ainda habitam esta maravilha medieval.

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Adentro às galerias e ao claustro da Abadia e sou invadido por vozes que anunciam que sou bem vindo e que estou em um lugar de muitos conflitos mas que agora mantêm a paz. Caminho para todos os cantos e recantos e quanto mais caminho mais feliz me sinto. Sinto que sou acompanhado por anjos. Apesar de ser um cientista, um historiador, pressinto a companhia agradável. Enfim pode ter sido um momento de emoção extrema. Mas gente, reitero, creio eu eles estavam lá.

Dois monges de Fontfroide, em particular, ganharam grande notoriedade: Arnaud Nouvel foi nomeado cardeal, reitor da igreja e legado papal, No século XIV um dos seus abades, Jacques Fournier, foi eleito papa sob o nome de Bento XII.

Em 1348, a peste negra atingiu Abbey Fontfroide e três quartos dos monges morreram. Em 1476, o mosteiro rico foi colocado sob prebenda, nome utilizado ao rendimento que recebe o pastor, o bispo e outros cargos eclesiásticos. Nos séculos 17 e 18, abades de Fontfroide reconstruíram muitos dos edifícios monásticos e acrescentaram novos recursos, incluindo um laranjal, jardins com terraços, uma parede imensa no pátio, e um grande portão.

Os últimos dos monges deixaram Fontfroide em 1791, mas a abadia não foi danificada e nem sofreu avarias durante a Revolução Francesa. O último abade de Frontfroide, o santo Père Jean, morreu em 1895. Uma lei de1901 pôs fim às comunidades monásticas, e os últimos monges fugiram para a Espanha. A abadia permaneceu desabitada até 1908, quando a propriedade foi vendida em leilão para aqueles que desejavam preservar sua arte e arquitetura. Torna-se privada com fins lucrativos mas com finalidade primeira de preservar um patrimônio tão caro à França.

Sob esta nova propriedade, extensa restauração foi realizado: vitrais foram montados, ferro forjado decorativo preencheu as aberturas das janelas, e estátuas e relevos foram adicionados às paredes e jardins. Em 1990, um jardim de rosas de mais de 3.000 roseiras foi plantada.

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A Abadia de Fontfroide é um excelente exemplo da cidade monástica prescrita pelos santos São Bento e Bernardo, em que tudo o necessário para uma vida simples é acessível dentro do complexo monástico.

Os vários edifícios, assim, proporcionam espaço para a oração (a igreja e o claustro), para o trabalho (o scriptorium e os jardins) e para o descanso (os dormitórios), bem como comida e bebida para sustentar os monges e irmãos leigos e principiantes.

O complexo monástico fechado de Fontfroide consiste em duas áreas principais: um para os monges e um para irmãos leigos e principiantes. A seção reservada aos monges é a mais próxima da igreja e aos claustros, enquanto a seção de irmãos leigos é aquela que se abre para o mundo exterior.

Os edifícios da abadia estão dispostos em torno do fluxo de água, o que gera a necessidade da irrigação para os jardins, os claustros, o moinho de milho e os viveiros de peixes.

Os antigos edifícios da abadia foram completamente restaurados e transformados em área de visitantes, que inclui um restaurante, uma loja de presentes, e uma adega.

Linda Abadia frequentemente ponho-me a pensar nos sussurros que escuto em meu escritório, tenho certeza que são os meus amigos anjos de Fontfroide me chamando para deliciar-me da água da Fons Frigidí, doce lugar onde o isolamento e solidão creio ajudaria em muito aos de boa vontade para fazer um mundo melhor. Até a volta.

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Paulo Edmundo Vieira Marques

Professor, Historiador, Escritor Medievalista.

Este artigo é uma homenagem a minha grande amiga Doutora Gislaine Machado, parceira de viagem e grande incentivadora dos estudos medievais.

Albi. A Maravilhosa Cidade Vermelha

Albi, bèl. Qu’èi descobèrt uei un endret hèra agradiu.

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Não importa quantas vezes eu vou visitar Albi, a minha reação sempre será de alegria, tranquilidade, satisfação, a cidade vermelha me deixa muito, muito feliz. Meu coração pulsou de uma maneira diferente diante de suas belezas. Albi, às margens do Rio Tarn, se espalha com suas ruelas estreitas em um sobe e desce que parece cenário de filme. Casinhas medievais de tijolos maciços, floreiras nas janelas, portas coloridas, bares pequeninos mas aconchegantes e bonitos, pessoas simpáticas e muitas crianças. 

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Caminhando diante de casas cativantes de repente, um susto: as vielas vão dar no coração da cidade, ocupado por um templo gótico fortificado, erguido no século 13 em dimensões megalomaníacas. A Cathédrale de Sainte-Cécile é uma aula de história sobre o passado de Albi. Ela oferece um contraste impressionante entre o rigor defensivo exterior de sua arquitetura e riqueza interior de uma decoração maravilhosa, espetacular. Testemunho da fé cristã após a heresia dos cátaros, segundo a igreja católica, esta catedral fortaleza é uma obra-prima do gótico sulista.  Resumindo: a cidade foi o centro do movimento herege cátaro, que dominou o sudoeste francês no século 12 e provocou a ira da igreja, dando origem as cruzadas, albigenenses, cátaras, e a confrontos sangrentos que destruíram vidas e cidades inteiras da região no século seguinte. A catedral foi erguida logo após a reconquista da cidade, como símbolo do poder católico.   A maior estrutura de tijolos do mundo foi construída no século 13, sua arquitetura militarista impressiona pela grandiosidade de suas estruturas. Ao lado, o igualmente formidável Palais de la Berbie reforça a afirmação da beleza de todo o complexo. Hoje, o palácio do bispo abriga o renomado e restruturado Musée Toulouse-Lautrec, a maior coleção do mundo de obras do artista nascido na cidade e confirma que a sua observação social ia muito além de Paris. Adicione, ao local, obras de Matisse, Dufy, Gauguin e mais, este é um museu onde se pode passar o dia todo. A catedral e o palácio são ambos construídos de tijolos feito à mão – como é praticamente todo o resto em Albi, dando origem ao apelido a esta linda cidade de La Ville Rouge. Olhando de perto, pode-se observar impressões digitais de 500 anos, aqui e ali no barro cozido das estruturas dos tijolos.

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O labirinto de ruas sem trânsito na cidade medieval tem muitas lembranças do passado. As casas são muito bem conservadas e restauradas de maneira exemplar. Nos telhados e terraços, nota-se, que foram utilizados e eram perfeitos para a secagem do presunto, bem como serviam como excelente lavanderia. O medievo é pulsante. Os sinais das ruas estão em duas línguas: Occitânico e moderno francês. O dia radiante ajudou em muito para que o reflexo do vermelho esplendoroso da cidade tivesse um realce ainda maior. As pessoas estavam, pelo menos naquele dia que caminhei sozinho pela Ville Rouge, alegres, sorriam. Todos gentis, àqueles com que falei. Diante da ponte de pedra, ligação para a cidade velha, o rio Tarn me abraça, fiquei cerca de vinte minutos observando o seu diálogo comigo. Rio belíssimo, sem poluição, devidamente preservado. O que mais me impressionou em Albi foi a justaposição do velho com o novo. Uma cena que não me sai da cabeça, penso seguidamente nela, é aquela em que inúmeros skatistas deslizavam e demonstravam as suas habilidades diante da magnífica Cathédrale de Sainte-Cécile. Ahhh, cidade vermelha, quase rosa, sinto a tua falta, sinto falta do teu aconchego, passei momentos inesquecíveis em teus braços. Te abraçarei novamente, se Deus quiser. Até.

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Paulo Edmundo Vieira Marques

Professor, Historiador, Escritor Medievalista.

Chuva, Sol, Frio, Vento, Primavera: a Beleza Intrigante da Carcassonne que eu vi.

 

 

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 As pedras de Carcassonne, caminhos inesquecíveis.

Carcassonne é a mais bem preservada cidadela medieval de toda a Europa. Construída no alto de uma colina, no sul da França, perto de Toulouse e dos Pirenéus, foi no passado a principal fortaleza militar da região. Do alto das suas impressionantes muralhas, que eram protegidas por mais de 1200 guerreiros, podia-se controlar uma importante via comercial que ligava a Península Ibérica com o resto do continente. Por causa de sua posição fronteiriça e estratégica, Carcassonne foi palco das mais ferozes e terríveis batalhas desse tempo. A primeira visão do centro histórico, cuja construção foi iniciada há cerca de mil anos, é inesquecível.

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A impressão que dá é que viajamos no tempo, para uma época de reis, cavaleiros, princesas e batalhas medievais. A fortaleza é protegida por 52 torres e duas muralhas uma interna e outra externa. A entrada principal, batizada de Porta Narbonnaise, é guardada por uma ponte levadiça. Na Era Medieval, cerca de 50 homens ficavam de guarda para impedir a entrada dos inimigos. Carcassonne, na verdade, são duas cidades. A Cidadela, que permaneceu intacta e protegida dentro das muralhas, e a Bastide Saint-Louis ou Cidade Baixa, que cresceu ao redor da fortaleza medieval. À noite, esta cidade transforma-se. Com menos de 400 moradores e apenas dois hotéis, as suas ruas ficam desertas e silenciosas, é a melhor hora para sentir o pulsar das muralhas, das ruas e também viajar, recuar 800 anos para sentir a vida de uma população que de uma forma melhor ou pior, viveu sem dúvida de uma maneira bem diferente da nossa. Uma das maiores atrações da cidade, é o Castelo Comtal, uma pérola da arquitetura medieval. Construído no século XII por um nobre chamado Bernard Trencavel, esta foi, durante anos, a morada dos senhores feudais que comandavam a região.

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O castelo é formado por duas alas, com um pátio no meio delas. Durante uma visita guiada, é possível conhecer as suas torres e boa parte do seu interior mais reservado. O Museu Arqueológico, tem no seu acervo ânforas romanas, sarcófagos e lápides Cátaras. (Os Cátaros faziam parte de uma corrente do cristianismo que pregava a não-violência e foram muito perseguidos pela Inquisição e dizimados pelo Papa Inocêncio III, com o auxílio do rei da França e os barões do norte). Para entender um pouco mais da história do lugar, vale a pena conhecer também o Museu da Inquisição, que expõe instrumentos de arrepiar. Esse triste período da história ocidental teve início no século XII e ganhou força quando o papa Inocêncio III autorizou o uso da tortura para obter a confissão dos heréticos. Verdadeiras atrocidades eram cometidas em nome da fé e, neste museu, podem ser vistos vários instrumentos como a cadeira de cravos, uma espécie de trono cheio de pregos onde o acusado era amarrado com cintos de ferro; e o berço de Judas, um triângulo de madeira com uma base de 30 centímetros e vértice de 60 usado para martirizar os hereges. Carcassonne é também um importante centro culinário. A cidade está cheia de bares, cafés e charmosos restaurantes, que lembram antigas tabernas medievais e tem o seu centro gastronómico no centro da praça. Escolha uma mesa ao ar livre, no meu caso a chuva era muito forte e tive que degustar no interior de um restaurante, por sinal a comida de ótima qualidade. Experimente um (cassoulet,) o mais famoso prato da região. Para acompanhar, saboreie um dos bons vinhos do lugar, como Corbieres, Minervois e Malepère. Uma refeição digna de reis e rainhas medievais.

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A primeira impressão que se tem em Carcassonne é a de um castelo encantado, repleto de histórias e contos fantásticos. Uma vez dentro das muralhas, descobre-se uma verdadeira relíquia da Idade Média, justamente procurada por milhões de turistas todos os anos. Hoje, Carcassonne é, depois da Torre Eiffel e do Monte Saint-Michel, o local mais visitado de França. As suas calçadas de pedra são percorridas, não por cavaleiros medievais, apesar de sentir-me como tal, mas por turistas de todas as nacionalidades, armados de vídeos, celulares, ipads e máquinas fotográficas

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A Basílica de Saint-Nazaire, a igreja original começou a ser construída no século 6, durante o reinado de Teodorico o Grande, o governante dos visigodos. Em 12 de junho, em 1096, o Papa Urbano II visitou a cidade e abençoou as pedras usadas para construir a catedral de Saint Nazaire e São Celse; a construção foi concluída na primeira metade do século XII. Foi construída no local de uma antiga igreja carolíngia, dos quais não se encontraram vestígios, mas pesquisas permanecem no local pois crê-se da existência dos mesmos. A cripta também, apesar de sua aparência antiga, remonta a nova construção. A igreja foi ampliada entre 1269 e 1330 no estilo gótico, em grande parte, à custa do bispo de Carcassonne, Pierre de Rochefort. Construída no intuito de intensificar a fé católica na região, até hoje, atrai peregrinos e visitantes de todos os credos para o seu recinto escuro, que convida ao recolhimento, iluminada por magníficos vitrais. O encontro do românico com o gótico dá-se aqui de uma forma harmoniosa, justificando o nome de: (joia da fortaleza,) com que os folhetos turísticos a distinguem. O seu órgão é um dos mais importantes e antigos do sul de França, e de Junho a Setembro há concertos diários. Pelas suas praças, onde ainda resistem alguns poços de pedra que abasteciam de água a população, distribuem-se agora esplanadas muito concorridas, com espetáculos diários de música ao vivo, bem distinta da dos trovadores Ramon de Miraval ou Peire Vidal, que aqui viveram durante algum tempo. Raymond-Roger Trencavel, visconde de Albi e último senhor da fortaleza, certamente não reconheceria a sua cidade. É certo que qualquer loja de souvenires vende conjuntos de capacete e espada, e mesmo armaduras completas. Também é fácil encontrar relógios de sol e saquinhos de pano com ervas cheirosas, das que perfumavam as roupas das damas da época. Mas a animação é sempre pacífica, e a magnífica iluminação noturna não dá paz aos fantasmas, impedindo o seu devaneio noturno e doloroso quais almas penadas; de acordo com o relato dos moradores e agentes turísticos durante os meses do verão, estive lá na primavera, Carcassonne é uma cidade profusamente habitada e muito viva. Para reconstituir ainda melhor o ambiente medieval, em agosto organizam-se torneios de cavalaria e falcoaria, com participantes vestidos a rigor, como no tempo dos cruzados. As velhas pedras da cidade não devem apreciar particularmente a lembrança, uma vez que foram estes que, em 1209, ditaram o seu fim: o visconde de Trencavel teve a ousadia de oferecer abrigo e proteção aos Cátaros, dissidentes de um catolicismo que se afundava na decadência moral. O seu pecado era defenderem a pureza dos costumes cristãos e não respeitarem a hierarquia eclesiástica.

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Carcassonne foi das primeiras cidades a sofrer o embate da guerra santa declarada pelo Papa Inocêncio III. Cercada, perdeu o acesso crucial ao rio Aude e, numa manobra pouco “cavaleiresca”, o visconde de Trencavel foi feito prisioneiro ao sair do castelo para negociar. A partir daí, começou o declínio. Simão de Montfort, o comandante da cruzada, administrou a cidade até à sua morte, mas o seu filho foi incapaz de manter o território conquistado, e entregou-o à autoridade direta do rei. Quando o filho do visconde de Trencavel tentou reaver as terras do pai, Luís VIII deu ordens para arrasar a fortaleza e exilar os seus habitantes; só sete anos mais tarde conseguiram obter autorização real para se instalarem de novo na zona, mas do outro lado do rio. O turismo anuncia Carcassonne como ( lá ville aux deux cités, a cidade das duas cidadelas) a antiga fortaleza, no cimo da colina, e o novo burgo que nasceu no século XIII, aos pés da primeira, na margem esquerda do rio Aude. Desde sempre as duas zonas tiveram existências distintas, com toda a atividade comercial e social a desenrolar-se em baixo, enquanto a cidade-alta abrigava uma guarnição de mais de mil soldados. A tendência manteve-se até hoje. Só cerca de duzentos e vinte, dos seus quarenta e cinco mil habitantes permanentes, habitam a cidade antiga. Mas apesar da atividade evidente nas suas ruas e praças arborizadas, que substituíram as muralhas e estão agora semeadas de cafés acolhedores, mas é óbvio, a atração será sempre a “cité”, marco milenar da história da região do Languedoc.

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Para além das comodidades e serviços turísticos de que dispõe, a Bastide Saint-Louis, como é conhecida a cidade-baixa, serve apenas para compor a magnífica vista que nos oferecem as torres altas da fortaleza – e do cimo desta sentinela de pedra, não se consegue evitar a sensação de fragilidade que vem do casario baixo e pálido da Bastide. Nada é regular ou simétrico nesta obra-prima da arquitetura militar, o que se explica pela longa história de reconstruções, modificações e acréscimos, que já dura há séculos e ainda não acabou. Mesmo depois da expulsão dos seus habitantes, a fortaleza foi modificada e aperfeiçoada, de modo a tornar-se um eficaz posto militar avançado. Ao mesmo tempo que se reforçou o sistema defensivo com a construção de uma segunda muralha exterior, também a austera Catedral de Saint-Nazaire foi aumentada e melhorada. O castelo do conde foi rodeado por um fosso, transformando-se numa fortaleza dentro da fortaleza. São cerca de três quilómetros de fortificações, por onde se distribuem cinquenta e duas torres para todos os gostos: há torres quadradas e redondas, de envergadura e tamanho diferentes; umas têm seteiras, outras janelas e algumas são, aparentemente, fechadas. Toda a cidade parece estar cheia de armadilhas: cotovelos estreitos para que só passe um inimigo de cada vez, degraus gigantescos, fossos dissimulados, enfim, todo o mostruário do engenho militar que foi sendo aperfeiçoado desde os romanos, destinado a guerras de cerco, tão comuns nos tempos medievais. Só a mudança das técnicas de guerra, nomeadamente a utilização generalizada da artilharia e a pólvora, nos séculos XV e XVI, a tornou definitivamente obsoleta.

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Basílica de Sainte Nazaire, Carcassonne.

Apesar de tudo, é impressionante o seu aspecto exterior de castelo, ao mesmo tempo irreal e inexpugnável. Contorná-la por entre as suas duas muralhas, espreitando pelas janelas e varandas para a paisagem verde de vinhas e campos cultivados, é um convite para uma viagem no tempo, que continua quando atravessamos a ponte levadiça. As ruas estreitas de pedra cinzenta, sombrias no verão e primavera e protegidas dos ventos frios no Inverno, transformam-se num labirinto, e nunca sabemos se terminam nas muralhas, na basílica ou na praça principal. Pouco importa. Os passos ecoam de longe, e a cada esquina esperamos ver aparecer alguém vestido de cota de malha e elmo reluzente. As carroças que conduzem os turistas em visitas guiadas reforçam a esperança, com o ruído dos cascos e o soprar dos cavalos a ressoarem nas paredes de pedra. Para continuar o recuo no tempo, é possível visitar o castelo do visconde, que dá acesso exclusivo a certas partes da muralha. E para terminar a viagem, nada melhor que uma visita ao Museu Medieval e ao da Inquisição, que nos proporcionam pormenores nem sempre agradáveis da história da cidade. Outro museu ao gosto da época é o da Tortura, que exibe sádicos e requintados instrumentos, concebidos em noites de insônia, destinados a punir sabe-se lá que crimes medievais.

Dizem os seus apreciadores mais sinceros que a cidade não deve ser visitada no Verão: há demasiada agitação e pouca privacidade para percorrer a velha Carcassonne, e a viagem no tempo, que deve ser feita na solidão, é constantemente interrompida por grupos de turistas ruidosos.

O destino de Carcassonne está traçado: será para sempre uma obra de arte inegável, e uma das maiores atrações turísticas da França e da Europa. A reconstrução fixou-a para sempre na Idade Média como quem tira uma fotografia, apesar de a cidade ter atravessado muitas outras épocas. E é, talvez, esta operação de congelamento temporal que lhe empresta toda a magia de cenário perfeito, que nos faz mergulhar profundamente num passado distante, belo mágico e por vezes também aterrador.

A Lenda da dama de Carcas

Não há castelo encantado que se preze que não tenha as suas lendas. Carcassonne justifica o seu nome com a história da dama de Carcas: quando Carlos Magno cercou a cidadela desta dama sarracena, achando-se desprovida de soldados, Carcas distribuiu pelas torres e muralhas bonecos feitos de palha, armados para combate. O estratagema teve resultado, e Carlos Magno levantou o cerco, desanimado com inimigo tão numeroso. Terá dito então a dama: “Sire, Carcas te sonne.” (“Senhor, Carcas vence-te”, em tradução livre). Daí o nome da cidade, que a lenda assegura ter-se tornado cristã, dando a dama origem à primeira linhagem de condes de Carcassonne. Outras lendas a respeito do nome da cidadela também são descritas, mas fiquemos com as menos extravagantes. A verdade, porém, é que os romanos já tinham uma fortificação na zona a que chamavam Carcasso, e os sarracenos, que se sucederam aos visigodos e não ficaram por aqui muito tempo, chamavam-lhe Carchachouna. A cidade-fortaleza foi palco de combates, cercos, destruições maciças e, por fim, expulsão dos seus habitantes, que resultou na ruína do que ainda estava de pé.

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Dame Carcas. Porta Narbonnaise, Carcassonne.

Lendária mesmo parece ser a sua reconstrução no século XIX, pelo arquiteto Viollet-le-Duc, o mesmo que restaurou os santuários de Notre-Dame de Paris e Sainte-Madeleine de Vézelay. Homem de sensibilidade e força de vontade que nos proporciona, até hoje, vivermos momentos inesquecíveis a respeito da Era dos Anjos, a Era do Medievo Bonito e intrigante. Ahh cidade deslumbrante, cidade que me remeteu ao passado, que fez chorar, sorrir, enfim cidade maravilhosa, por favor guarda os meus passos que deixei pelas pedras de tua cidade la. Até a volta.

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A bela Carcassonne, saudades.

Este artigo foi feito em homenagem a minha amiga Delia Paese, grande admiradora de La Cité, Carcassonne. Grande Abraço.

Paulo Edmundo Vieira Marques

Conques – Raízes do Outro Lado do Mundo

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Conques foi uma das cidades medievais mais bonitas que já visitei até hoje. Tudo é pitoresco em Conques, situada na região de Aveyron, na França. Não existe outra forma de conhecê-la: prepare o seu coração, e ponha-se a caminhar pelas suas ruas estreitas, instigantes, intrigantes, feitas de pedras tortas de uma perfeição maravilhosa. Parece o céu na terra. O vento ameno que, tão logo eu comecei a descer a ladeira principal, eu senti claramente contornar o meu rosto, anunciava que um filho desgarrado retornava as suas raízes. O ambiente é de um feitiço encantador e a cada passo que eu dava sentia cada vez mais atraído pela sua magia e beleza. Prontamente me senti em casa. Sorria felizmente, coloco desta maneira pois chorava copiosamente. Cada imagem que ficava para trás em um instante me deixava com saudades, é impossível entrar em Conques e não ficar imediatamente apaixonado pelo seu ambiente rústico e místico. Meu coração acelera como se dizendo, já vivi aqui, como é bom estar aqui outra vez, apesar de fisicamente ser a primeira vez. Flutuo, literalmente, descendo as suas lindas ruelas.

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É uma pequena cidade medieval encravada em um lindo vale, rodeada pela suntuosidade de Ste Foy, uma catedral enorme e de uma beleza indescritível. Ponto de passagem para o Caminho de Compostela faz desta cidade medieval uma parada essencial e preponderante para o restante da jornada. Conques alivia, tranquiliza, afaga seus peregrinos e visitantes.

Na cidade, não vivem mais de 350 habitantes permanentes, no entanto, o vai e vem das pessoas nas ruas é feito de vários turistas e peregrinos, a cidade pulsa de uma maneira diferente. Silenciosamente, mas ao mesmo tempo cativante e repleta de vida. Todos os anos, Conques, recebe mais de 500 mil visitantes e, desses, 20 mil são peregrinos, que fazem o Caminho de Santiago de Compostela, principalmente entre os meses de abril e outubro.

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Na primavera, há flores por todo o lado, de várias cores e feitios, os aromas se misturam, o sol brilha majestoso abençoando àqueles do bem e da paz. Bem sabemos que é assim em todo o mundo, mas nesta cidade, eu garanto, é diferente, é sublime. Sente em suas muradas e deixe o vento de Conques lhe contar histórias. Você vai gostar das mesmas pois lhe são narradas ao pé do ouvido. O vento é paciente e cheio de aventuras. A localização da cidade a torna mais encantadora, no meio de um cenário verdejante, límpido quase nas nuvens. Fica em torno de 300 metros de altitude, mas nos sentimos abraçados pelas montanhas e vales. Prepare-se, pois, Conques só te abraçará se seus caminhos forem trilhados a pé, pois é a única forma de ter um contato mais próximo com quem lá vive e trabalha.

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Nesta cidade tudo se desenrola à volta da fé e do turismo. Portanto reze, siga a história, divirta-se e principalmente viva o medievo nesta vila maravilhosa. Coma um crepe, aprecie um dos mais belos monumentos românicos da arquitetura medieval, o Tímpano da catedral de Ste Foy, sinta o aroma dos sabonetes das lojas de souvenir procure as conchas, elas te darão proteção e te indicarão o caminho desde que a tua fé concorde. Caminhe pelas ruelas, deixe as pedras disformes te apontar o sentido correto. A Abadia lhe abraçará e lhe dirá as coordenadas para que um dia retorne. Apesar de seus enormes tesouros a Abadia e o museu de Conques são de uma simplicidade ímpar, pois quem a visita sente que o verdadeiro significado desta bela cidade está na aura mística e atraente deste cantinho que, com certeza vivi há muitos anos atrás. Te amo Conques, retornarei.

 

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Paulo Edmundo Vieira Marques, escritor e historiador medievalista.

Santa Cecília – A Catedral Fortaleza

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Albi guarda uma das catedrais mais impressionantes e a maior construída com tijolos no mundo. Medindo 113 metros de comprimento, 35 de largura e com uma torre sineira com 78 metros de altura, surpreende o visitante muitas vezes comparando-a a um verdadeiro “castelo”.

A Catedral fazia parte do sistema defensivo que compreendia o Palácio deBerbie e, na época, podia acolher 6 000 albigenses em caso de perigo.

A sua edificação teve início no ano de 1282, período em que os bispos da Igreja Católica começavam a exercer forte poder local. Devido à utilização de um tipo de tijolo de cor avermelhada específico desta região da França, a cidade acabou por receber a alcunha da cidade vermelha. A catedral de Albi é completamente feita desse tijolo vermelho.

Foi construída para comemorar a aniquilação dos cátaros¹ no sul da França. A construção atual foi precedida por outras: a primeira datada do século IV que foi destruída por um incêndio no ano 666. A segunda é datada de 920 e tinha o nome de Santa Cecília, que se mantém até hoje. Foi reformada no século XIII, sendo refeita em pedra. A igreja gótica que se vê hoje foi construída entre 1282 e 1480.

É uma catedral aparentemente simples, mas que se destaca pela sua grandiosidade e beleza interior. Parece uma fortaleza inexpugnável construída em uma colina com vista para o espaço circundante. Rodeando-a pode-se admirar a força e a austeridade de seus muros que elevam-se a 40m de altura. As janelas abertas têm 20 metros a partir da base e são estreitas, aumentando a sensação de verticalidade.

St. Cecilia oferece um contraste impressionante entre o rigor defensivo exterior de sua arquitetura e riqueza interior de uma decoração suntuosa. Testemunho da fé cristã após a heresia dos cátaros, esta catedral fortaleza é uma obra-prima do gótico sulista.

O interior do monumento marca uma ruptura com a aparência maciça do exterior. Acredita-se que eles são artistas flamengos, estranhos, que perceberam o enorme mural do Juízo Final (1475-1480). Ao mesmo tempo, os artistas esculpem o francês na tela rood gótico e do coro de encerramento (1475-1484). Este conjunto de pedra é adornado com uma bela escultura policromada, testemunho único pela sua importância e qualidade da escultura francesa do século XV.

Entre os tesouros da catedral, há um belo órgão clássico francês (1736) e mais:

  • 87 estátuas na fachada exterior da galeria,

  • 33 personagens do Antigo Testamento ao redor do coro,

  • 15 estátuas contida dentro da Igreja (12 apóstolos, a Virgem, São João Batista e São Paulo),

  • 72 estátuas de anjos, Carlos Magno e do imperador Constantino.

Todas as estátuas mantiveram a sua policromia original. A cor tende ao naturalismo, cabelos, atitudes e figurinos são uma maravilhosa variedade de estilos, barbas, rostos, drapeados e distinguem três famílias que podem estar relacionadas com a arte dos grandes gravadores franceses do final do século XV: Antoine Le Moiturier e Michel Colombe.

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A tela rood, o ‘jubé’

O “jubé²” (parede interior que separa o coro do coro) aparece em verdadeiras rendas brancas de pedra, adornado com mais de 270 estátuas esculpidas por mestres da Borgonha.

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O Orgão

Está entre os mais belos da França. Seu buffet (aparador)  Christophe Moucherel (1734-1736) é admirado pelos conhecedores por suas dimensões incomuns.

Este instrumento é então reformulado por vários construtores de órgãos e em vários períodos do tempo até perder o seu caráter original. A partir de 1950, a sua condição de operação chega a ser inviável até que uma decisão foi tomada para restaurá-lo e não para reconstrui-lo. Então, em 1977, Bartolomeo Formentelli é designado para garantir que a restauração seja feita no instrumento Moucherel. Esta inauguração aconteceu em 1981. É uma mecânica complexa e frágil e requer atenção e cuidados constantes.

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As abóbadas

Os afrescos na abóbada (1509-1512) são de cores ricas e dimensões excepcionais (97m de comprimento e 28 m de largura) e formam em seu todo a maior pintura renascentista italiana e a mais antiga da França.

O revestimento azul profundo dos arcos acima do coro é o famoso “Blue de France“, que também é chamado de “azul royal”. Quanto à amostragem na abóbada da nave, foi estabelecida que esta cor tivesse base lápis lazuli e óxido de cobre, que é provavelmente a escolha de materiais de qualidade que explica o bom estado de conservação da abóbada.

As abóbadas da catedral ainda possuem folhagem decorativa, arabescos, candelabros e cenas pastorais. Os temas de Adão e Eva e da Anunciação estão representadas por figuras importantes do Antigo e do Novo Testamento, em uma ordem que culmina com Cristo em Majestade. Dois compartimentos servem para a imagem de Santa Cecília, padroeira do lugar.

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O julgamento final

As paredes laterais da “capela-mor” são decoradas com pinturas alusivas ao Juízo Final, da autoria de pintores flamengos entre 1474 e 1484, o mais importante da França pelo seu tamanho : 300m².

Uma obra prima majestosa pintada no final do século XV, sob o reinado de D. Luís I d’ Amboise que, com os adjetivos recebidos, lhe valeram para ser mencionada como Patrimônio Mundial pela UNESCO. 

Apesar da ausência de sua parte central, destruída no final do século XVII, quando Cristo apareceu em glória, o Juízo Final mantém um frescor surpreendente pictórico. Há mais de cinco séculos, antes da abóbada, foi decorado com pinturas suntuosas e coloca à frente uma realidade que não lhe poderia escapar: a morte. 

A Catedral de Santa Cecília faz parte do Patrimônio Mundial da UNESCO e hoje, é uma das catedrais mais visitadas da França.

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¹ CátarosOriginado da palavra grega καϑαρός katharós, que singnifica puro, o catarismo era um movimento cristão que ocorreu na região Sul da França e na parte Norte da Itália no fim do século XI e foi até o começo do século XIV. Os cátaros eram considerados heréticos pela Igreja Católica e suas ideias são paralelas às crenças do gnosticismo, dos paulicianos (Oriente Médio) e dos bogomilos (Reino dos Búlgaros).
²Le jubé: Em uma igreja, o jubé é uma plataforma e um muro de pedra ou madeira que separam o coro litúrgico da nave. Tem esse nome a partir da primeira palavra da frase em latim “jube, domina benedicere”. The rood-screen(inglês) (um dos raros remanescentes na França) possui uma decoração em chamas que anuncia toda a magnificência ornamental da capela-mor em torno das sepulturas.

Paulo Edmundo Vieira Marques

 

 

Escudeiro – Fiel Parceiro

O escudeiro tinha por encargo transportar as armas, em especial o broquel, o escudo do guerreiro. Devia ainda preparar os cavalos de montaria, pois fazia parte da “escuderia” ou “cavalariça”. Era, por isso, considerado um membro do “famulus”, isto é, daqueles criados domésticos ligados à casa senhorial. Era o escudeiro quem servia seu senhor à mesa, o acompanhava em combate e era seu mensageiro. Os escudeiros formavam o grupo de serviçais obsequiados, geralmente jovens oriundos de famílias de vassalos que ficavam de guarda ou como aprendizes no castelo. Na Espanha e no Império Romano eram considerados aprendizes, um estrato inferior da aristocracia. Quando, no século XII, se desenvolveu o hábito de armar o cavaleiro, esses aprendizes passaram a ser considerados aspirantes à cavalaria. Contudo a elevação do custo da ascensão social inteditou tal possibilidade. No século XIV, o escudeiro era, portanto, um aristocrata que, embora tivesse idade e mérito, não poderia tornar-se cavaleiro. este passou a ser assimilado à nobreza, ao passo que o escudeiro manteve-se nos limites do estrato plebeu.

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O poeta Wolfram von Eschenbach mostra suas armas, Códice Manesse, 1304.

Paulo Edmundo Vieira Marques

Especiarias – Cobiça e Fantasia

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Derivada da palavra latina species, que designava qualquer “espécie” de produto e, mais tarde, a partir do Baixo Império (período final do Império Romano do Ocidente), as substâncias aromáticas ou drogas de origem exótica, as especiarias suscitaram a cobiça e a fantasia de muitos ao longo da Idade Média. Segundo o tratado do florentino Pegolotti, La pratica della mercatura, 1340, a lista das especiarias compreendia 286 produtos eliminadas as repetições, há no total 193 espécies. Os produtos comumente utilizados na farmacopeia medieval e provenientes dos três grandes reinos – mineral (mercúrio, bórax), vegetal (anis, cardamomo), animal (âmbar, castóreo, substância segregada pelo castor) – correspondiam a mais da metade da listagem. Depois, vinham os produtos de uso industrial, próprios para o tingimento (alume, indigo), ou utilizados na perfumaria (cânfora, almíscar), compondo 22 por cento dos produtos listados. Finalmente, os condimentos, últimos da lista, 20 por cento, com as clássicas e conhecidas especiarias (pimenta, canela, cravo-da-índia). Além desses constavam da lista: mel, laranja e açúcar, produtos que hoje não mais considerados especiarias

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Um mesmo produto podia servir indistintamente à farmacopeia, à cozinha e às manufaturas, o que dificulta sua classificação por uso e utilidade. Mais de um quarto desses produtos, em particular as grande especiarias orientais, provinha da Índia, e do Extremo Oriente. Caracterizavam-se pelo alto preço e pelo fato de já serem objeto de grande comércio entre os indianos e árabes, antes de alcançarem o mercado europeu. A Pérsia e a Ásia Central forneciam 13 por cento dos produtos citados por Pegolotti, o Oriente Médio e o Egito, 20 por cento. Da África, vinham o marfim e o incenso, das regiões pônticas (na costa do Mar Negro), a sinopita e a argila vermelha da Armênia, dos países nórdicos, o âmbar, o estanho e o breu. mas um quarto dessas especiarias recenseadas provinha, sobretudo, das regiões mediterrâneas, produtos de sua atividade extrativa, agrícola e artesanal. A importância das especiarias na cozinha medieval foi por muito tempo creditada à necessidade de conservar os alimentos, ou à influência árabe. Todavia, um conhecimento mais apurado dos livros de receitas e das contas privadas passou a levar em consideração também os fenômenos de moda e gosto e a diversidade no uso dos condimentos segundo os países, ou as regiões, e diversos meios sociais. O consumo diversificou-se, crescendo conforme subia a escala social. Um tando abandonadas pela arte culinária do final da Idade Média, as especiarias continuaram como base da farmacopeia até a “revolução química” do século XIX. As receitas populares, remanescências de receitas ditas esquecidas ou modificadas, utilizavam os “simples”, mas os receituários e antidotários, expressão das teorias da polifarmácia herdada dos gregos e dos árabes, faziam uso intenso das especiarias em associações complexas.

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A economicamente importante Rota da Seda (vermelho) e especiarias rotas de comércio (azul) bloqueado pelo Império Otomano, 1453 com a queda do Império Bizantino, estimulando a exploração motivada inicialmente pela constatação de uma rota marítima em torno da África e provocando a Era dos Descobrimentos.

Com o intuito de desenvolver o comércio das especiarias entre o Extremo Oriente e o Mediterrâneo, três grandes rotas intercontinentais foram, simultaneamente ou sucessivamente, utilizadas: o golfo Pérsico, nos  primeiros tempos do Islã, o mar Vermelho e o Rio Nilo, sob os fatímidas, e as duas rotas mongóis da seda e das especiarias, sendo Marco Polo, um dos seus precursores, atingindo o mar Negro no início do século XIV. A partir de 1350 e até o final da Idade Média, Alexandria e Beirute foram os grandes mercados desses produtos do Oriente. Sua supremacia só seria contestada em 1498, com a chegada às Índias de Vasco da Gama, que, pelo contorno da África, inaugurou a rota portuguesa das especiarias.

especiarias 4Miniatura da Bodleian Libray, manuscrito que descreve a saída de Marco Polo de Veneza rumo a Rota da Seda.

Paulo Edmundo Vieira Marques

 

O Jogo Medieval

Além dos emblemáticos torneios, havia uma série de jogos medievais, sobretudo a partir do século XIII. Apesar dos esforços conjugados das autoridades civis e eclesiásticas, os jogos de azar – principalmente os de dados – tiveram um grande desenvolvimento nessa época. Não havia taverna sem jogos. Todos jogavam. O poder público rapidamente abandonou a atitude penal em relação a esse tipo de jogo, adotando uma atitude fiscal, As próprias autoridades mantinham as casas de jogos, importante fonte de renda. Essa evolução, desenhada desde o final do século XIII, terminou por volta de 1500.

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 A história do nobre gesto de Alexandre, Rei da Macedônia, livro feito a mando de João da Borgonha, História de Alexandre, século XV. Fonte: gallica.bnf.fr

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 Peças medievais do jogo de xadrez, geralmente usadas também no medievo em virtude do seu significado descritivo do cotidiano medieval.

Por muito tempo apanágio exclusivo da aristocracia, o xadrez conquistou as burguesias urbanas a partir do século XIV. Produto importado que entrou na Europa por volta do 1000, via Espanha, Itália e países nórdicos, o xadrez foi durante muito tempo parte da educação do jovem cavaleiro. O jogo era assunto de vários livros, traduções e compilações que ocupavam lugar de honra nas bibliotecas dos príncipes do fim da Idade Média. Entretanto, antes da grande revolução do xadrez no final do século XV – aquela que transformaria a dama na todo-poderosa do tabuleiro – , o jogo parecia bastante insípido. Era mais massacre que estratégia.

O jogo de cartas era novidade na Idade Média. Na segunda metade do século XIV, surgiu na cena europeia o baralho, decorado com pinturas. Desde o século XV, era praticado por grande parte da população, permitindo a artesãos especializados viver da confecção e do comércio de baralhos. No início um jogo simples, ao longo do século passou a integrar dados racionais que permitiam a elaboração de uma estratégia, em particular com o princípio da distribuição e composição das cartas e a introdução da noção de trunfo. Essa conjugação de azar e reflexão esta na origem do sucesso do novo divertimento.

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 Cartas da Caça flamenga pintado desenhado à mão acredita-se  ter sido produzido na França ou Borgonha, final do século XV.

O jogo de Pela, ancestral do tênis, teve um crescimento sem precedentes no fim da Idade Média e começo do Renascimento. Para a nobreza, era um meio de manifestar sua excelência física e mostrar sua prodigalidade. Jogar com o príncipe era sinal de distinção e um meio de se valorizar no meio da sociedade da corte. A quadra era integrada às residências princepescas, enquanto outros jogos permaneciam nas cidades.

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Representação do Medieval Tennis no Livro de Horas  Hore Beate Marie Virginis secundum Usum Romanum. 1510.

No campo, o jogo mais comum era a Soule, um ancestral do rúgbi. Todos os golpes eram permitidos para apropriar-se da bola. Praticado na Inglaterra, países célticos, norte e oeste da França, era organizado pelos senhores feudais.

Paulo Edmundo Vieira Marques

Batalhas da Vida

“Dei meu nome para alguns, negaram. Dei amor e carinho, recusaram. Dei minha vida, desperdiçaram. Quando da minha morte, espero, reflitam, para a reciprocidade será tarde. Contudo estarei em paz e, assim será, pois a minha alma intocável, limpa e pura me acompanhará”

De um Cavaleiro Anônimo

Paulo Edmundo Vieira Marques

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Força de Deus

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Há muito tempo encaro batalhas, enfrento-as de peito aberto, sem medo, se quiserem me chamar de corajoso, aceito, pois assim agi. Muitas virão, perderei, ganharei, mas deixarei aos meus filhos o legado de que nunca desisti pelo contrário persisti. Cambaleei, levantei, lutei, quase cai, mas o chão não me conheceu, claro o inimigo padeceu. As peleias geralmente são amargas, duras e machucam, mas as minhas feridas são parceiras, cicatrizam rápido, e deixam marcas em meu corpo que me lembram das próximas que ali adiante logo virão. Que venham, estarei pronto com meus escudos e a força de Deus para contemplar meu coração e meu corpo sem desgosto ou frustração.

Paulo Edmundo Vieira Marques.

Paulo Edmundo Vieira Marques.