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Abadia de Moissac – Pedras que Falam

A Abadia de Saint-Pierre de Moissac é um complexo arquitetônico religioso que se destaca por suas extraordinárias esculturas românicas, localizado na cidade francesa de Moissac, no Caminho de Santiago de Compostela. O prédio impressiona, também, por sua paz e enorme espiritualidade.

Fundado no século VII, foi saqueado pelos muçulmanos depois de serem derrotados na batalha de Poitiers, incendiando-o no ano de 1042. Mas o mosteiro será ligado à poderosa ordem da Abadia de Cluny no ano de 1047. Com o abade Durand, monge formado em Cluny, deu-se a reforma espiritual e material do prédio semidestruído. Mais tarde, um dos seus sucessores, o abade Ansquitil, monge de extrema sensibilidade artística (1085-1115), encarregou-se da edificação do claustro que sofreu uma enorme modificação estrutural.

Com o apoio significativo de Cluny o mosteiro tem prosperidade e tranquilidade permanecendo sem sobressaltos até o século XV.  As pedras são assíduas dialogantes dos monges. Durante a Revolução Francesa, ele sofreu inúmeras dificuldades, mas com apoio de muitos principalmente dos peregrinos que iam para Santiago de Compostela o claustro e a frente ocidental se mantiveram intactas. Os maravilhosos vestígios da arte românica da Abadia de Moissac foram preservados.

A história mudou o tamanho do grande mosteiro que faz parte da abadia. A lenda atribui sua fundação à Clovis I (481-511), cuja conversão significava o triunfo do catolicismo na Gália. Depois de derrotar os visigodos arianos, uma visão milagrosa inspirou-o para criar na confluência do rio Tarn Garonne, um grande mosteiro destinado a mil monges.

Sem documentação para provar, usando manuscritos do monge e santo St. Didier, bispo de Cahors, como a fonte mais aceita pelos historiadores é creditado para o rei Clovis II (635-657), que entre 630 e 655 cuidou de sua fundação, pois a Abadia desde o início da sua construção gozava de favores reais.

O magnífico claustro de Saint-Pierre de Moissac é emblemático. Assustadoramente belo. O claustro, que é acessado a partir da Plaza de Durand de Brendons foi concluído em 1100, quando Ansquitil era o abade, ele mantém seus 76 capitais excepcionais.

A mistura de capitéis decorados com magníficas plantas decorativas é um exagero de beleza arquitetônica. As flores de canto são de uma perfeição estrutural de extremo bom gosto. Os detalhes impressionam. Nos ábacos, animais reais e fantásticos, incluindo figuras humanas aparecem às vezes, e têm se mantido intactas apesar dos anos. Na banda superior da dos bordados são vistas conchas com formas geométricas, com inscrições que se relacionam com a iconografia do capitel em que as mesmas aparecem, perfeito. Em outros capitéis, de uma beleza estonteante, cinzéis escrevem as cenas do Antigo Testamento a partir da Paixão de Cristo, e da Redenção, e distribuído entre eles pode se ler outros itens como: milagres ou martírios de santos e algumas páginas do Apocalipse.

A porta ocidental e o tímpano da Igreja de Moissac impressiona pela riqueza nos detalhes das pregas e drapeados das roupas, inseridas nas estruturas arquitetônicas românicas, espantam pela perfeição. Mas acima de tudo, faz nos admirar, a capacidade de transmitir atitudes dos personagens dentro e fora do tímpano que parece receber seus visitantes sussurrando canções espirituais e de paz.

Entre 1115 e 1130 esta cobertura magnífica foi concluída. O tímpano de cerca de seis metros de diâmetro, repousa sobre um lintel* formado com três blocos de mármore bordados com um grande número de rosetas. O lintel busca seu apoio no batente central e dois batentes suplementares de sustentação para as suas imagens: à esquerda, São Pedro, padroeiro da abadia, e à direita do profeta Isaías são referências para o Novo e o Velho Testamento. Duas pilastras com decoração maravilhosa e meticulosa, na parte superior do portal, dão ao pórtico uma beleza ainda maior.

Os fiéis que lá adentram, principalmente àqueles que se dirigem Á Santiago de Compostela relatam que as vozes das pedras sussurram em seus ouvidos animando-os diante da árdua caminhada que ainda lhes resta. O complexo é uma enorme pedra bíblica dirigida a um povo iletrado sedento de fé. Um magnífico trabalho do medievo uma obra-prima da escultura românica.

Há muito mais nestas paredes do claustro, da igreja que apenas com calma, serenidade e sensibilidade que um dia talvez eu perceba com o meu coração e lentamente comece a ouvir as pedras contarem a história deste maravilhoso lugar.

*Em arquitetura, um lintel é uma peça dura de materiais diversos (madeira, ferro, pedra, concreto, etc.) que assenta nas ombreiras, ou jambas e constitui o acabamento da parte superior de portas e janelas; sendo também chamado de dintel, padieira ou verga.

Paulo Edmundo Vieira Marques, professor, historiador e escritor medievalista

 

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