Monthly Archives: August 2017

As Catapultas do Medievo – Vizinhos Maus

As catapultas medievais são mecanismos de cerco que utilizam uma espécie de braço para lançar um objeto (pedras e outros) a uma grande distância, evitando assim possíveis obstáculos como muralhas e fossos.

Em termos técnicos, as armas de cerco aproveitavam os princípios de funcionamento de duas armas muito antigas, mas também muito eficientes: o arco e a funda, espécie de corda para atirar pedras. Em diferentes momentos históricos, foi o aprimoramento e a junção das duas invenções que permitiu o surgimento da artilharia. A partir delas dá para estabelecer duas linhas evolutivas para contar essa história. A primeira, que aconteceu no Ocidente, foi a que originou a catapulta propriamente dita. Com significado em grego indicando algo como “jogar contra”, a catapulta foi uma das poucas armas da Antiguidade com local e data de nascimento registrados: a cidade-Estado grega de Siracusa, na ilha da Sicília (atual Itália), por volta de 399 a.C. Mas há um mistério. O artesão que bolou a catapulta permanece desconhecido. Uma das explicações é que, provavelmente, o engenheiro que concebeu a peça era um escravo. E escravos não podiam levar a fama.

O invento, com uma tecnologia mais avançada, que ficaria conhecido no Ocidente com o nome de trebuchet, foi construído por forças cristãs que combatiam na Terra Santa durante a Terceira Cruzada (1189-1192). O comandante da expedição, o rei inglês Ricardo Coração de Leão, tinha uma adoração especial por dois enormes trebuchets apelidados por ele de Catapulta de Deus e Vizinho Mau, que abriram enormes brechas na fortaleza da cidade de Acre.

 

Originalmente, a palavra catapulta referia-se a um lançador de pedras, enquanto balista basicamente, uma grande besta que atirava diversas flechas e dardos, seguindo uma trajetória horizontal, semelhante a passar um prato rapidamente, de um lado para o outro, sobre uma superfície plana.

As manganelas eram catapultas enormes e com rodas, capazes de atirar pedras e outros projéteis, à grandes distâncias, normalmente contra as muralhas dos castelos. Os itens eram colocados em uma tigela ou balde e atirados com um braço, também conhecido como onagro.

A poderosa Trabuco era usada atirar muitas pedras, ou objetos em chamas, de uma só vez. Era considerada a catapulta mais perigosa de todas. Porém, através dos anos, os termos foram gradativamente sendo modificados.

Para preparar a catapulta, os soldados apertavam a corda, girando o sarilho. Com isso, as cordas na base do braço eram torcidas, ficando cada vez mais apertadas. Os soldados então colocavam no receptáculo uma pedra muito grande ou outros objetos, e depois soltavam a corda. As cordas em volta da base se desenrolavam todas ao mesmo tempo e o braço se movia para frente, lançando sua carga. Uma catapulta grande era capaz de arremessar uma pedra por até 460 metros de distância.

As catapultas em geral eram usadas para destruir muros de castelos. Para atacar um castelo, normalmente era necessária mais de uma. As catapultas também eram usadas para arremessar lanças contra um exército inimigo quando este avançava.

Os exércitos usavam catapultas grandes e pequenas. As menores eram montadas sobre rodas e levadas para as batalhas. Carpinteiros que viajavam com os exércitos construíam catapultas ao longo do percurso até as batalhas. As de grande porte geralmente ficavam em um só lugar e eram usadas pelos moradores das cidades e dos castelos para se defender.

Sem sombra de dúvida um vizinho indigesto, incômodo e letal durante uma batalha medieval. Arma que escreveu uma história militar medieval de extrema relevância e importância pois originou perspectivas sociais e políticas em vários reinos do medievo.

Paulo Edmundo Vieira Marques – Professor, Historiador e Escritor Medievalista.

 

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Abadia de Moissac – Pedras que Falam

A Abadia de Saint-Pierre de Moissac é um complexo arquitetônico religioso que se destaca por suas extraordinárias esculturas românicas, localizado na cidade francesa de Moissac, no Caminho de Santiago de Compostela. O prédio impressiona, também, por sua paz e enorme espiritualidade.

Fundado no século VII, foi saqueado pelos muçulmanos depois de serem derrotados na batalha de Poitiers, incendiando-o no ano de 1042. Mas o mosteiro será ligado à poderosa ordem da Abadia de Cluny no ano de 1047. Com o abade Durand, monge formado em Cluny, deu-se a reforma espiritual e material do prédio semidestruído. Mais tarde, um dos seus sucessores, o abade Ansquitil, monge de extrema sensibilidade artística (1085-1115), encarregou-se da edificação do claustro que sofreu uma enorme modificação estrutural.

Com o apoio significativo de Cluny o mosteiro tem prosperidade e tranquilidade permanecendo sem sobressaltos até o século XV.  As pedras são assíduas dialogantes dos monges. Durante a Revolução Francesa, ele sofreu inúmeras dificuldades, mas com apoio de muitos principalmente dos peregrinos que iam para Santiago de Compostela o claustro e a frente ocidental se mantiveram intactas. Os maravilhosos vestígios da arte românica da Abadia de Moissac foram preservados.

A história mudou o tamanho do grande mosteiro que faz parte da abadia. A lenda atribui sua fundação à Clovis I (481-511), cuja conversão significava o triunfo do catolicismo na Gália. Depois de derrotar os visigodos arianos, uma visão milagrosa inspirou-o para criar na confluência do rio Tarn Garonne, um grande mosteiro destinado a mil monges.

Sem documentação para provar, usando manuscritos do monge e santo St. Didier, bispo de Cahors, como a fonte mais aceita pelos historiadores é creditado para o rei Clovis II (635-657), que entre 630 e 655 cuidou de sua fundação, pois a Abadia desde o início da sua construção gozava de favores reais.

O magnífico claustro de Saint-Pierre de Moissac é emblemático. Assustadoramente belo. O claustro, que é acessado a partir da Plaza de Durand de Brendons foi concluído em 1100, quando Ansquitil era o abade, ele mantém seus 76 capitais excepcionais.

A mistura de capitéis decorados com magníficas plantas decorativas é um exagero de beleza arquitetônica. As flores de canto são de uma perfeição estrutural de extremo bom gosto. Os detalhes impressionam. Nos ábacos, animais reais e fantásticos, incluindo figuras humanas aparecem às vezes, e têm se mantido intactas apesar dos anos. Na banda superior da dos bordados são vistas conchas com formas geométricas, com inscrições que se relacionam com a iconografia do capitel em que as mesmas aparecem, perfeito. Em outros capitéis, de uma beleza estonteante, cinzéis escrevem as cenas do Antigo Testamento a partir da Paixão de Cristo, e da Redenção, e distribuído entre eles pode se ler outros itens como: milagres ou martírios de santos e algumas páginas do Apocalipse.

A porta ocidental e o tímpano da Igreja de Moissac impressiona pela riqueza nos detalhes das pregas e drapeados das roupas, inseridas nas estruturas arquitetônicas românicas, espantam pela perfeição. Mas acima de tudo, faz nos admirar, a capacidade de transmitir atitudes dos personagens dentro e fora do tímpano que parece receber seus visitantes sussurrando canções espirituais e de paz.

Entre 1115 e 1130 esta cobertura magnífica foi concluída. O tímpano de cerca de seis metros de diâmetro, repousa sobre um lintel* formado com três blocos de mármore bordados com um grande número de rosetas. O lintel busca seu apoio no batente central e dois batentes suplementares de sustentação para as suas imagens: à esquerda, São Pedro, padroeiro da abadia, e à direita do profeta Isaías são referências para o Novo e o Velho Testamento. Duas pilastras com decoração maravilhosa e meticulosa, na parte superior do portal, dão ao pórtico uma beleza ainda maior.

Os fiéis que lá adentram, principalmente àqueles que se dirigem Á Santiago de Compostela relatam que as vozes das pedras sussurram em seus ouvidos animando-os diante da árdua caminhada que ainda lhes resta. O complexo é uma enorme pedra bíblica dirigida a um povo iletrado sedento de fé. Um magnífico trabalho do medievo uma obra-prima da escultura românica.

Há muito mais nestas paredes do claustro, da igreja que apenas com calma, serenidade e sensibilidade que um dia talvez eu perceba com o meu coração e lentamente comece a ouvir as pedras contarem a história deste maravilhoso lugar.

*Em arquitetura, um lintel é uma peça dura de materiais diversos (madeira, ferro, pedra, concreto, etc.) que assenta nas ombreiras, ou jambas e constitui o acabamento da parte superior de portas e janelas; sendo também chamado de dintel, padieira ou verga.

Paulo Edmundo Vieira Marques, professor, historiador e escritor medievalista

 

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