Cavalaria do Medievo Miles Seculi – Natureza e Sentido

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A forma exterior da Cavalaria, foi sem dúvida, cristã. Elaborada pela igreja, foi o resultado de um longo e exaustivo esforço desta para enquadrar e canalizar o ardor de gerações de guerreiros, afim de lhes dar acesso à graça, portanto ao Reino de Deus. Ao guerreiro bravo, forte, a igreja repassa a ideologia do guerreiro benfeitor, exemplo edificante dos santos militares, o soldado que coloca a sua espada ao serviço de Deus e da Igreja, dando-lhe, através disso, uma mística própria. Propõe ao cavaleiro, integrado na vida secular, o miles seculi, uma vida particular que lhe permite, pelo ofício das armas e segundo a sua própria natureza, agir em função de um estado de espírito e de escolhas pessoais, no sentido de realizar harmoniosamente a sua vocação espiritual e temporal.

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A Cavalaria é constituída sob a forma de “corpo” e definida pelos textos e manuscritos medievais como uma “confraria de guerreiros íntegros” possuindo o seu código de conduta, os seus santos protetores, os seus mitos fundadores, os seus ritos (velada de armas, palmadas, etc.), o seu simbolismo (espadas, esporas, estandartes, etc.), os seus mestres (senhores) os seus companheiros (os Cavaleiros investidos), os seus aprendizes (os escudeiros).

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De acordo com os meus estudos e com a minha sensibilidade que não me abstenho de maneira alguma, a Cavalaria medieval, em sua essência provém de um ethos não cristão, o qual em muitos pontos, é incompatível com os Evangelhos, e não me parece seguir rigorosamente os ensinos e regulamentos da igreja. Se é verdade que a totalidade dos Cavaleiros é cristã, frequentemente de forma não ortodoxa, não hesitando em dar a vida pela sua fé, também não restam dúvidas de que ideais básicos da sua ética provêm de valores pagãos.
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Deste modo, dando prioridade às noções de fidelidade, de honra, de sacrifício, de respeito pela palavra dada, as noções de covardia e de vergonha (mais do que pecado) que mancham a honra do homem e da sua linhagem, de lavar uma injustiça pelo sangue (mais do que o perdão cristão), de querer a paz pela vitória das armas (noção romana), etc., o Cavaleiro afirma claramente uma ética heroico-pagã, no seio de um universo superficialmente cristão. Podemos estender tais constatações à prática do “julgamento de Deus” à “prova pelas armas”, reconhecida como válida pelo direito feudal e pelo direito canônico, para provar a excelência do seu direito, reparar a honra injuriada ou ainda humilhar um perjuro ou um herético. Esta prática esteve ligada à teoria mística da vitória unida ao espírito, que proporcionava ao vencedor, para além da glória, o fogo divino próprio da natureza solar, uma espécie de acesso a transcendência e de reconhecimento divino, com Deus favorecendo o “justo”, tornando um “ser” tão próximo dos “céus” como o poderia ser um santo, e punindo o vencido como culpado ou pecador pela sua falta. Todos estes usos, estranhos às religiões dualistas semitas, forma encontrados, pela Igreja triunfante, vencedora, tão bem implantados no seio das populações recentemente cristianizadas, que não pôde senão integrá-los no seu “corpo” doutrinal, dando-lhes uma coloração cristã através de um revestimento teísta e moralizador. É assim possível falar, não de uma cristianização destas práticas, mas da manutenção da antiga virilidade espiritual sob uma forma cristã, “onde a via do guerreiro sacral se substitui à do santo ou do devoto”. A mais bela ilustração disto foi a ideia nórdico-romana, de que a prova das cruzadas constitui uma espécie de Athanor*, vivido pelo Cavaleiro como uma possibilidade de transcender a sua natureza humana; e o seu corolário, a morte física, a fim de aceder à imortalidade da alma, seguindo nisto a recomendação de São Bernardo de Claraval*, de “conquistar o Paraíso pela espada”

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São Bernardo de Claraval

 

*O athanor também chamado forno cósmico, é um forno utilizado na alquimia para fornecer calor para a digestão alquímica. Era considerado o forno filosófico, o qual deveria permitir a obtenção da pedra filosofal (lapis philosophorum)
*Bernardo de Claraval foi um influente abade da Igreja Católica na Idade Média. Nascido em 1090 em Borgonha, Bernardo era proveniente de uma família nobre e era um dos sete filhos de Tescelin Sorrel com Aleth de Montbard. Iniciou muito cedo sua vida religiosa. Aos nove anos de idade começou seus estudos na Escola Canônica de Châtillon-sur-Seine. Pouco tempo depois, optou por ingressar na Abadia de Cister. Entusiasta da vida religiosa, Bernardo convenceu vários amigos e parentes a ingressarem também na vida monástica, levando consigo mais 30 candidatos para a Abadia. Em função da dedicação religiosa de Bernardo, foi designado para um projeto que seria de grande apreço para o resto de sua vida, a fundação de uma casa cisterciense em Ville-sur-la-Ferté. A fundação foi chamada de Claraval e Bernardo foi nomeado como abade. Isso tornou Bernardo conhecido como Bernardo de Claraval. Bernardo de Claraval teve anos iniciais difíceis com regras religiosas severas. Porém era um religioso dedicado e interessado. Sua abadia cresceu satisfatoriamente, a ponte de, em 1118, outras serem fundadas para não superlotar Claraval. No ano seguinte, Bernardo de Claraval escreveu suas primeiras obras que aumentariam sua popularidade. Destacou-se também como defensor do reformismo do clero. No final da década de 1110, foi fundada no Oriente a Ordem dos Cavaleiros do Templo de Salomão, ou simplesmente Templários. Alguns anos depois, Bernardo de Claraval tomou conhecimento do objetivo dos monges guerreiros e tornou-se um defensor do ideal. Bernardo de Claraval foi responsável por fazer chegar ao papa Honório II a informação sobre o objetivo dos Templários e, com isso, buscar o reconhecimento e o apoio da Igreja Católica. O encontro com o papa ocorreu no Concílio de Troyes, em 1128, o qual foi muito influenciado por Bernardo. Este conseguiu o reconhecimento da Igreja Católica sobre os Templários e ainda ficou encarregado de escrever o estatuto da Ordem. Bernardo de Claraval, após o Concílio de Troyes, tornou-se uma personalidade muito respeitada no mundo católico, com liberdade para intervir em assuntos políticos e com voz de destaque na defesa dos direitos da Igreja. Com o falecimento do papa Honório II, criou-se um cisma, mas foi Bernardo que influenciou pela escolha de Inocêncio II como papa. Mais tarde, em 1145, Bernardo seria responsável diretamente por outro papa, Eugênio III. Após longos e influentes anos de vida religiosa, Bernardo de Claraval foi responsável por fundar 72 mosteiros, havia mais de 500 abadias cistercienses e mais de 700 monges ligados a Bernardo de Claraval. Bernardo de Claraval faleceu em 1153. Muitos milagres foram atribuídos a ele e o papa Alexandre III o canonizou em 1174 e, muitos séculos mais tarde, foi declarado Doutor da Igreja pelo papa Pio VIII.
Imagens pesquisadas junto à British Library, Londres, Inglaterra.

 

Paulo Edmundo Vieira Marques – Professor, Historiador e Escritor Medievalista

 

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