Cordes sur Ciel – Quase no Céu

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A cerca de 25 km de Albi, no Departamento de Tarn, você será literalmente seduzido pelo encanto de Cordes-sur-Ciel. Esta aldeia, repleta de história, rica em lendas, situa-se entre as rochas de Aveyron e o céu. A localização é extremamente exuberante. Parece uma enorme montanha com um ninho em seu topo. As nuvens cobrem o seu cume como que protegendo os seus moradores. Está entre as mais belas vilas medievais da França. Cordes sur Ciel fascina a todos que a descobrem. Inicialmente parece uma miragem posteriormente você observa que a cidade somente quer tocar e abraçar o céu. Como cita Albert Camus, visitante e posteriormente morador da linda cidade:

“O viajante que, a partir dos terraços de Cordes, olhar para o céu em uma noite de verão, não precisará mais se preocupar com a angústia ou solidão, pois nesta cidade a beleza se renova a cada dia o que irá remover qualquer sentimento sofredor”

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Ao caminhar pelas suas ladeiras, e cruzando as suas ruelas, parece que nos transportamos em uma viagem através dos séculos, como se folheássemos um fabuloso livro de arte. A íngreme subida não nos intimida, pois, a beleza é tanta que ficamos admirados observando cada ponto, cada esquina, cada casebre. Em Cordes sur Ciel tudo deve ser percebível e imperdível. Fique atento, ela nos chama ao seu convívio a todo momento.

Cordes-sur-Ciel é uma das mais antigas cidades muradas encontradas em Midi-Pyrénées, uma vila cujas as flores eram uma característica da região durante a Idade Média. As flores foram e são símbolos e fonte de sustentação do comércio local. Por sinal simbologia que a deixa mais bela.

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A cidade foi fundada em 1222 por Raymond VII, conde de Toulouse, durante a reconquista da Occitânia* após a morte de Simon de Monfort. Ela, Cordes, foi a primeira e mais importante Bastide, construída para acolher os refugiados após as guerras cátaras. Originalmente, era cercada por falésias de calcário branco. A área circundante certamente tinha sido habitada desde tempos pré-históricos. Mais tarde, os gauleses e os romanos ocuparam a área e construíram habitações no local. Descrevendo o vale, no início do século XII, duas pequenas aldeias existiam no seu entorno; no meio do lindo vale encontrava-se a pequena igreja de St-Pierre de Crantoul ao norte St-Jean de Mordagne para o sul. Para o oeste, a meio caminho até o pico rochoso, um pequeno grupo de casas foram construídas em um terreno plano em torno da igreja de Nossa Senhora do Vaysse. Quem pensaria, quem imaginaria que lá em cima, no topo destas encostas íngremes, difíceis de escalar, uma cidade seria construída e que transformaria as falésias em uma fortificação? Como historiador sempre desejei observar e estudar uma cidade com essas características. Senti-me gratificado e foi um privilégio conhecê-la.

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O seu contexto histórico é fascinante e vale a pena ser melhor estudado. Nas terras dos Condes de Toulouse, uma nova religião cristã foi formada que logo se tornou popular e começou a ser amplamente adotada em um clima de tolerância: o catarismo. No entanto, Roma, através do papa, declarou ser herético, tal movimento e, em 1209 lançou uma cruzada contra os manifestantes dissidentes. Por meio da espada e do fogo, pilhagens e massacres, o rei da França e os barões do Norte apreenderam essas vastas terras ao sul. Em 1218, Simon de Montfort, “o Leão da Cruzada” morreu em Toulouse. O movimento cruzado retrocedeu o que possibilitou a reconquista da Occitânia. Mas em 1222 nada restava da aldeia de Saint-Marcel, e nos arredores do lindo vale, que tinha sido sitiada e arrasada dez anos antes pelas tropas de Simon de Montfort.

O novo conde de Toulouse, Raymond VII, que acabou sucedendo o seu pai, decidiu por duas razões construir fortificações em suas terras:  para defender suas terras voltadas para o norte de onde o inimigo viria, substituindo a fortaleza de St Marcel, que havia sido queimada e destruída, e para acomodar a população local, que tinham sido dispersada em virtude das cruzadas vindas do Norte. Cordes foi construída na parte superior da rocha Mordagne, porque tinha todas as qualidades requeridas. Este monte isolado, que se estende de leste a oeste, é mais de 100 metros mais alto do que os do vale do Rio Cérou e seu pequeno afluente, o Aurosse. Suas encostas eram íngremes e suas falésias pedregosas faziam do seu cume quase inacessível, e não tinha sido habitada anteriormente.

A Bastide Cordes foi fundada em 1222 durante a chamada “Cruzada albigense”. Sete anos mais tarde, a sua construção já tinha sido concluída. O incrível trabalho foi realizado com imensa rapidez, quando a cidade e seus arredores foram fortemente fortificadas, Cordes foi considerada um reduto essencial e preponderante para a região do Languedoc. É foi por isso que, no Tratado de Paris, o rei exigiu que ele deveria ser entregue a ele, juntamente com várias outras cidades. Foi o regresso da paz que estimularam a atividade industrial em todo o Languedoc. Embora a fundação de Cordes coincidiu com um incremento e na reviravolta na história do Languedoc, foi também parte essencial de um movimento responsável pela fundação de centenas de novas aldeias na região. A cidade progrediu durante seu primeiro século de existência, cresceu rapidamente. Atraídos pelas vantagens oferecidas pelo Conde, como parcelas de terras para futuros habitantes na propriedade livre e individual, as pessoas vinham da região de Albi, de Rouergue e de Quercy para viver na nova cidade progressista e fornecedora de trabalho. Casas foram construídas e lojas de artesanato evoluíram.

Cordes sur Ciel tornou-se um dos principais centros dos cátaros. Mas iria experimentar a crueldade da Inquisição, o repressivo Bispo de Albi estaria ativamente envolvido na revolta dos habitantes da cidade contra os métodos da Inquisição. A lenda diz que em 1233, revoltados com o fato de que um seguidor cátaro fora condenado a queimar na fogueira, os habitantes de Cordes , diz os manuscritos do seu museu, atiraram  os três inquisidores no fundo do poço no  mercado da vila onde hoje há uma placa para comemorar ou relembrar o evento. Mas apesar de tudo nos anos seguintes a cidade experimentou um crescimento fenomenal. A Bastide – se espalhou para além de suas muralhas e novas linhas de fortificação foram necessárias  cinco no total -. Em três gerações, tornou-se uma cidade próspera e pulsante com mais de 5000 habitantes. Sua prosperidade surgiu a partir dos tecidos, tingimento, lã e couro industrial comércio e finanças. Os comerciantes prosperaram e algumas famílias nobres construíram, entre 1280 e 1350, magníficas residências com fachadas góticas no que Cordes é reconhecida.

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Em 1348 a peste negra atingiu a cidade. Aniquilou cerca de um quarto da população. Sete anos mais tarde, a Guerra dos Cem Anos levou a Inglaterra ocupar terras e colinas vizinhas. Cordes enfraqueceu-se por causa das rivalidades dinásticas entre Inglaterra e França. O povo de Cordes se defendeu contra esta enorme ameaça e reforçou as suas fortificações. Eles experimentaram dificuldades, especialmente com salteadores e mercenários, que se aproveitaram das muitas tréguas, entre os ingleses e os franceses, para empreender suas próprias guerras e atrocidades. A partir de 1450 a cidade voltou a um período mais calmo e empreendeu grandes projetos de construção e reparação. Construíram novas indústrias de couro e a nova indústria do pastel que iria produzir grandes fortunas. A partir de 1562, as Guerras de Religião, que viu católicos e huguenotes-protestantes, lutando entre si, iriam trazer dificuldades enormes para Cordes. A cidade fortificada, que foi considerada o melhor baluarte da região de Albi, tornou-se objeto de inveja dos huguenotes. Em 1568 foi assediada, saqueada e parcialmente queimada. Mas qual Fênix, a linda cidade reergueu-se como se tivesse a cumplicidade do céu e das nuvens para auxiliá-las nas dificuldades. Caminhando pelos caminhos de pedras de Cordes pude reviver os fatos que estudei e senti, pois é próprio do historiador, como se estivesse vivendo todos os fatos que relatei anteriormente, cada um em seu momento. As pernas cansadas, os joelhos doloridos, mas nada disso me impediu te visitar os céus, ou pelo menos o de Cordes sur Ciel e, a amostra foi maravilhosa.

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 *A Occitânia é uma região histórica e cultural da Europa cuja principal característica é a língua occitana, neo-latina muito parecida com a língua catalã. Pode ser considerada uma nação sem estado. Seu território com quase 200.000 km² compreende a França meridional, o Vale de Aran na Catalunha, alguns vales alpinos no Piemonte e uma aldeia na Calábria (sul da Itália), chamada de Guardia Piemontese, fundada no século XIII por evangélicos valdenses piemonteses que fugiram de perseguições religiosas e mantiveram a língua occitana.

 

Paulo Edmundo Vieira Marques

Professor, Historiador e Escritor medievalista.

Obs: Este texto é uma homenagem para um amigo e grande incentivador. Homem de grande sensibilidade para apreciar a arte. Muito Obrigado Jorge Strassburger, jamais esquecerei a consideração e o reconhecimento.

 

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